AP Photo/Leslie Mazoch
AP Photo/Leslie Mazoch

Ernesto Sábato morre às vésperas de completar 100 anos

Escritor argentino morreu em sua casa do distrito de Santos Lugares

Ariel Palacios - O Estado de S.Paulo,

30 Abril 2011 | 11h43

BUENOS  AIRES – “Que horror é o mundo!”. O autor destas palavras, o escritor argentino Ernesto Sábato, morreu ontem (sábado) de madrugada aos 99 anos de idade. No dia 24 de junho teria completado um século de existência. O criador de obras como O Túnel, Sobre Heróis e Tumbas e Um e O Universo embora fosse um seguidor de um humanismo social como o de Bertrand Russel e Bernard Shaw, tendia à depressão ao estilo de Vincent Van Gogh e Antonin Artaud, também enfaticamente admirados pelo argentino.

O escritor – cuja profissão original foi a de físico nuclear – teve a marca do pessimismo nas últimas décadas de sua vida. No entanto, indicava que o planeta ainda tinha “chances”: “este século é atroz e terminará de forma atroz. A única forma de salvá-lo é pensar poeticamente”.

Com sua morte encerra-se a plêiade de escritores argentinos de fama internacional do século vinte como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar.

 

Sábato, vencedor do Prêmio Cervantes em 1984, estava há cinco anos praticamente recluso em sua casa no distrito de Santos Lugares, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, onde residia há décadas.Segundo sua secretária e amiga pessoal Elvira González de Fraga, há 15 dias uma bronquite complicou seu estado de saúde. “E essas coisas, nessa idade, são algo terrível”, lamentou.

Coincidentemente hoje  à noite o autor de Abadón, o exterminador, que havia nascido na cidade de Rojas, na província de Buenos Aires em 1911, seria homenageado em uma conferência na Feira do Livro de Buenos Aires com a exibição de um documentário feito por seu filho, o cineasta Mario Sábato.

Uma de suas últimas aparições em público foi em 2004 no Congresso da Língua na cidade de Rosário. Ali, o português José Saramago, o definiu de “autor trágico e eminentemente lúcido ao mesmo tempo”. Sábato ficou mudo, chorou e depois abraçou Saramago.

Ontem de manhã, ao saber da morte de seu amigo, a escritora Maria Rosa Lojo destacou que Sábato “foi uma grande influência, que ia mais além da literatura”. A ensaísta María Ester Vázquez, biógrafa de Jorge Luis Borges e amiga de Sábato, afirmou que sua obra mais transcendente foi “Sobre heróis e tumbas”.

O escritor também era um especialista na História do tango. Segundo ele,“somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”. Segundo o autor, “um napolitano dança a tarantela para se divertir. O portenho dança um tango para meditar sobre seu destino”.

Militância. Homem preocupado por seus semelhantes, Sábato foi anarquista e comunista na juventude e início da vida adulta. Sua militância política o levou à clandestinidade e posteriormente à Europa, onde rompeu com o comunismo, dominado pelos stalinistas. Ali deu uma guinada radical, dedicando-se nos anos 30 ao estudo da física no Instituto Curie em Paris.

Embora fosse considerado um dos mais prometedores físicos da nova geração, Sábato abandonou a ciência e iniciou sua atividade literária em 1945 com Um e o universo, um compêndio de mini-ensaios filosóficos. Na sequência, apadrinhado pela mecenas literária argentina mais emblemática da primeira metade do século vinte, Victoria Ocampo, Sábato entrou no mundo das novelas, com O túnel (1948), Sobre heróis e tumbas (1961) e Abadón e o exterminador (1974), entre outros. Grande parte de seus primeiros escritos foram salvos das fogueiras que o escritor fazia no quintal da casa por sua mulher, Matilde Kunmisky.

A política, no entanto, nunca deixou a vida do escritor, junto com suas contradições. Em 1976, junto com seu colega Jorge Luis Borges, participou de um almoço com o general Jorge Rafael Videla. Ao sair da Casa Rosada, comentou sobre o ditador: “um homem culto, modesto e inteligente”. Mas, posteriormente, tal como Borges, arrependeu-se do apoio inicial à ditadura.

Desta forma, em 1984 o então presidente Raúl Alfonsín (1983-1989) encomendou-lhe a tarefa de presidir a Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (Conadep) que redigiu o “Relatório Sábato”, mais conhecido como o “Nunca mais” sobre os sequestros, torturas e assassinatos de civis por parte da ditadura militar argentina (1976-83).

Última fase. Sábato passou quase duas décadas sem publicar nada, desde Apologias e Rechaços, de 1979. Em 1992 confessou que havia estado à beira do suicídio duas vezes. “A arte me salvou. E por isso minha arte é trágica”, explicou Sábato, cujo exacerbado pessimismo tornou-se até folclórico para os argentinos.

Mas, em 1999 - depois da morte de sua esposa Matilde, com quem estava casado durante mais de 60 anos - lançou Antes do fim, livro que entrelaça lembranças dos principais momentos de sua vida com reflexões.

Na obra, após um encadeamento de sombrias previsões para o mundo, conclui com uma mensagem de esperança para os jovens, a quem chama de “herdeiros do abismo”.

No ano 2000 Sábato escreveu A resistência. A obra, que seguiu a temática de Antes do fim, exaltava os “valores do passado” e criticava a informática, “que afasta o homem do mundo que o rodeia”. Paradoxalmente, foi o primeiro livro argentino que foi primeiro lançado na internet antes da edição impressa.

A crítica celebrou suas principais obras, escritas antes de 1979, além de destacar sua participação na defesa dos Direitos Humanos nos anos 80. Mas, lamentava que seus derradeiros livros estavam distantes do ensaísta ou narrador que cuidava de forma elaborada sua estilística. A crítica indicava que seus últimos livros não passavam de um obsessivo retrato das implicâncias do escritor.

 

Esperança. O epílogo de “Antes do fim”, titulado “Pacto entre derrotados”, é uma carta direta aos jovens, alertando que mesmo os filhos dos poderosos não têm o futuro garantido. Mas em vez de mergulhar totalmente na depressão, Sábato convoca à ação e à defesa da solidariedade e da vida. “A esperança sempre foi maior que o desespero. Os jovens devem se arriscar pelos outros”.

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