Ernesto Neto faz da galeria seu quarto de dormir

Até a abertura de Acontece num Fim de Tarde, a instalação de Ernesto Neto é uma incógnita para ele mesmo. O que se sabe é que a obra, que ficará à mostra a partir desta quinta-feira para convidados e na sexta para o público, na Galeria Camargo Vilaça, dá continuidade às confecções orgânico-afetivas do artista plástico, em mais um ambiente anatômico que interage sinestesicamente com o visitante.Até terça-feira, Neto trabalhava no andar de baixo da galeria, munido de sua inseparável máquina de costura, construindo a estrutura malemolente que serve de núcleo para seu ambiente. Um colchão, feito de tecidos claros e transparentes estava sendo montado em torno de uma das colunas do espaço. A idéia do artista é criar um objeto que possa ser "usufruído" pelo espectador, que, para começar, só poderá chegar até o confortável estofado (recheado de pequenas bolas de isopor), depois de tirar os sapatos e atravessar uma cortina translúcida que separa a entrada da galeria da sala da instalação. Por dentro, Neto carimbou a parede de tinta, usando os dedos.Depois dessa passagem, o visitante chega em um espaço sereno, que parece feito de tecidos humanos. Esse aspecto é reforçado pelos tons de pele e carne de todos os volumes do espaço, objetos sempre arredondados, recheados de bolas e transparentes como são os tecidos vivos que cobrem as vísceras e deixam transparecer as veias. "A transparência dos panos está relacionada com uma preocupação ética do meu trabalho ", explica o artista carioca. "Trata-se de um cuidado em tornar todo o processo evidente para quem vê o resultado final." A decisão em evitar a criação de uma arte de efeitos não impediu o artista de transitar pela cenografia, como a bela instalação que serviu de cenário para o último show de Marisa Monte.Na Camargo Vilaça, Neto retoma alguns elementos daquela instalação, como as gotas de tecido recheado de condimentos, que além de uma interessante luta travada entre o peso dos materiais e a resistência do tecido proporcionam mais um aspecto da ambientação dos sentidos proposta pelo artista: o perfume. Embora não tenha contado qual o aroma da vez, seus preferidos são o cravo, o cominho e outros de formato esférico que tem cheiro de cozinha.Toda a obra de Ernesto Neto , aliás, remete ao conforto do lar. Ele esclarece que, na verdade, é sua casa que se mistura ao trabalho. "Minha casa toda é meu ateliê e sempre tenho a sensação de que estou trabalhando sobre minha cama, vendo tevê com minha mulher." Não é por acaso que desta vez Neto vai fazer um colchão.Essa peça, realizada anteriormente em uma versão que hoje pertence a colecionadores alemães, ilustra o convite da mostra em um momento de uso. A companheira de Neto, "minha modelo", ocupa o aconchegante objeto no impresso da galeria. Quem quiser seguir a sugestão deve cuidar apenas para não esquecer da vida e pegar no sono. Todo o ambiente, além de muito confortável, será iluminado por uma luz suave.O próximo projeto do artista plástico é seu casamento. No dia 16, uma grande instalação montada no MAM do Rio abrigará a cerimônia. Neto diz que até as roupas dos padrinhos estão incluídos no projeto. Se conseguir patrocinador, o artista vai veicular as imagens da cerimônia pela Internet, em tempo real.No andar de cima, a galeria apresenta, também a partir de amanhã, um trabalho em vídeo da dupla Janine Antoni e Paul Ramirez-Joneas. Os artistas mostram uma única obra realizada em conjunto, a videoinstalação Always New, Always Familiar, que ficará funcionando no mezanino até dia 13 de janeiro.Ernesto Neto, Janine Antoni e Paul Ramirez-Jonas - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 13/1. Abertura, amanhã (07), às 20 horas.

Agencia Estado,

06 de dezembro de 2000 | 20h17

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