Ernesto Neto e Vik Muniz, em Veneza

Desde a sua inauguração, em 1895, a Bienal de Veneza não reunia tantas representações nacionais. A mostra, que será aberta oficialmente para o público no domingo - mas que já pode ser admirada pelos convidados a partir de quarta-feira, quando tem início seu vernissage -, contará com a participação de 65 países. Desses, apenas 31 contam com pavilhões permanentes nos Giardini, como o Brasil, que terá Ernesto Neto e Vik Muniz como representantes oficiais. Os responsáveis pela presença brasileira no evento ainda aproveitaram a ocasião para mostrar outras facetas da cultura nacional, como a rica produção barroca ou a caricata imagem de Carmen Miranda.Se esse afluxo de representantes de várias nacionalidades significa uma revalorização do prestígio internacional do evento, não se deve confundi-lo com um retorno ao modelo tradicional de Veneza, inspirado nas grandes feiras internacionais. Em sua 49.ª edição, a Bienal veneziana é, mais do que nunca, fruto da concepção intelectual - e afetiva - de um curador. Afinal, é o próprio Harald Szeemann, responsável pela concepção e formatação da mostra, que disse, em recente entrevista, mostrar o que ama. Por isso, se recusa a auto-denominar-se como crítico - supondo que o termo define alguém que parta apenas de critérios objetivos - e provoca dizendo que "somente uma escolha muito subjetiva tem a chance de um dia tornar-se um valor objetivo."Para sua segunda edição da Bienal de Veneza - também coube à Szeemann a curadoria da 48.ª mostra, realizada em 1999 - o curador suíço elegeu uma linha de ação bastante livre, que pretende pôr em destaque as várias vertentes artísticas contemporâneas e ressaltar grandes momentos da produção do último século. Não se trata de uma visão de caráter retrospectivo, mas de uma tentativa de mostrar caminhos que até hoje se revelam muito significativos para nortear a produção atual e futura.Plataforma da Humanidade, título e conceito da exposição central, que se desenrola paralelamente às representações nacionais, pretende ser "uma afirmação de responsabilidade frente à história". Segundo ele, não faria sentido hoje articular a mostra em torno de questões como a afirmação da identidade (que pautou a produção no final do século passado) e muito menos em torno de discussões quase tão centenárias quanto a Bienal, como aquela entre figuração e abstração. O italiano Mauricio Cattelan, por exemplo, ousa ao recriar de forma absolutamente realista a figura do papa João Paulo II caindo sob o peso de um meteorito, numa alusão à morte de Cristo na cruz e estabelecendo uma provocadora metáfora para a crise moral vivida pela sociedade ocidental. Aliás, a obra acaba de alcançar o preço recorde US$ 886 mil num leilão da Christie´s realizado mês passado.A intenção de Szeemann é "observar e recolher os sentimentos, as narrações que chegam dos jovens artistas e de seus trabalhos. São os trabalhos sociais, os temas ecológicos, os ritmos da vida cotidiana, as novas tecnologias, a rede mundial da informação, o trabalho, o esporte, a felicidade e a tragédia", define.Há, em meio a esta seleção, figuras históricas como a de Joseph Beuys, que serve de ponto de partida de toda a viagem proposta por Szeeman - um profundo conhecedor do artista alemão, já tendo organizado várias retrospectivas sobre sua obra. Como marco zero de toda a exposição está a obra Fim do Século 20, a qual simbolizaria de maneira emblemática a utopia social e o profundo conceito de liberdade contido na obra de Beuys. "Ele acreditava que, ao final do século passado e início do novo, o nosso calor seria capaz de fazer reviver o inorgânico. Esta é a mensagem sugerida pelas pedras de lava com olhos arrendondados que repousam no pavimento como peixes pré-históricos que esperam que alguém venha liberá-los", explica o curador.Outros "mestres" contemporâneos também estarão representados, como Cy Tombly, Richard Serra, Gerhard Richter, Gary Hill e Bill Viola, com "O Pensador". Mas estão presentes também jovens artistas como a eslovena Tanja Ostojic ou o brasileiro Ernesto Neto. Não há nenhuma hierarquização na organização da mostra, nenhum critério temporal ou espacial foi definido. A proposta de Szeemann foi montar uma única e grande exposição, que vai do Pavilhão da Itália aos Giardini que abrigam os outros pavilhões nacionais (inclusive o brasileiro), passando pelos prédios da Corderie, Artiglerie e Gaggiandre. Essa liberdade também se estende para além dos limites das artes visuais, incluindo linguagens outras como o cinema, a dança, o teatro e a poesia - representada por um interessante bunker de poemas criado ao longo da fronteira que separa a área expositiva da área reservada à Marinha Militar.Com 220 artistas de várias partes do mundo, a mostra Plataforma da Humanidade conta com a presença de apenas um brasileiro, Ernesto Neto, que vem conquistando o público internacional com suas estranhas e sedutoras estruturas maleáveis e perfumadas. O artista carioca que chamou a atenção de Szeemann não está presente apenas na mostra geral. Ele é um dos representantes brasileiros oficiais na Bienal, com Vik Muniz.

Agencia Estado,

04 de junho de 2001 | 17h49

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