Lukas Bieri/Pixabay
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Erga os olhos

A rotina das aves mostrava que nem tudo estava bagunçado pela pandemia, ainda havia alguma ordem no caos. Os pássaros também transmitiam a sensação de liberdade

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2021 | 03h00

Em março de 2020, tive a sensação de que o calendário tinha caído numa espécie de lodaçal distorcendo nossa percepção do tempo. Meses, dias, semanas se sucediam de uma forma embolada, eu não sabia se ainda estávamos em março ou se o ano já tinha acabado. E o que estava estranho ficou pior agora quando, novamente em março, parece que voltamos ao início da pandemia. A sensação de falta de controle sobre as coisas, a disparada dos casos, os hospitais carecendo de estrutura, incertezas sobre o que abre e o que fecha. Será que entramos num looping temporal? Estaríamos condenados a viver num eterno retorno a março?

ico abismado quando penso que esta coluna começou há um ano com o objetivo de nos ajudar a refletir sobre a situação e encontrar caminhos para ficarmos bem ao longo das poucas semanas que imaginávamos que duraria a pandemia. Um ano.

Mas se por um lado a situação vem se arrastando por muito mais tempo do que prevíramos, com todos os desgastes emocionais que isso implica, por outro lado eu nunca havia pesquisado tanto sobre o manejo do estresse, as práticas associadas à resiliência, estratégias de regulação emocional – tudo o que a nossa geração precisou com inéditas urgência e intensidade.

Atividade física, higiene do sono, jogos de tabuleiro, suporte social, meditação, respiração – a lista de refúgios cresceu conforme as colunas se sucederam. A mais surpreendente descoberta para mim foi a observação de pássaros, como comentei na coluna Mente avoada, publicada em agosto. Por uma série de coincidências, aderi quase sem querer ao hobby de observar, classificar e fotografar aves, notando que aquela atividade me ajudava a relaxar em meio a tudo o que estava acontecendo.

E qual não foi minha surpresa ao descobrir que não era o único. Não apenas que não era o único birdwatcher – esse é um dos hobbies mais populares no mundo e vem crescendo no Brasil. Mais do que isso, eu não era o único psiquiatra recebendo conforto ao olhar para o alto. 

No meio do ano passado foi publicada uma pesquisa feita com colegas psiquiatras da Polônia, perguntando em questionários anônimos se eles vinham usando o contato com a natureza, particularmente a observação de pássaros, como uma estratégia para lidar com o estresse em meio à pandemia de covid-19. Os resultados mostraram que essa atividade vinha sendo praticada pelos profissionais e sim, lhes trazia tranquilidade, por vários motivos. A rotina das aves mostrava que nem tudo estava bagunçado pela pandemia, ainda havia alguma ordem no caos. Os pássaros também transmitiam a sensação de liberdade. Transportavam os médicos para um lugar seguro, livre do vírus. A prática aliviava ainda a pressão de estar em combate constante com a doença. E além de ser uma experiência estética prazerosa (visual e sonora, acrescento eu), também promovia a conexão com a natureza – que sabemos ser relaxante por si só.

Fica a prescrição. Experimente. Há pássaros perto de você por mais urbana que seja sua vizinhança. Olhe em volta e procure por eles. Pode parecer bobagem, mas, bem, é o que diversos psiquiatras vêm fazendo para lidar com o estresse. Não custa tentar.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

 

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