Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

''Era uma final de campeonato''

A chuva que caiu no dia anterior atrapalhou a nossa passagem de som. Água e rajadas de vento inundavam o palco de meia em meia hora fazendo os técnicos correrem com lonas pra cobrir os equipamentos. Às 20 para as dez subimos eu e o André Frateschi para acertarmos as nossas vozes. Por conta da lei do silêncio, tivemos que parar a passagem às 22h. Conclusão: não houve tempo suficiente, nada ficou pronto.

Miranda Kassin, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

Seguimos de volta pra casa com um silêncio cheio de expectativa na van. Será o som vai estar bom? Será que vai chover? Será que o público vai gostar? Será que a Amy vem? Fui pra cama com todas essas perguntas. E sono, nenhum.

O sábado amanhece resplandecente e as nuvens que aparecem não estão tão carrancudas como de costume. Saí para acerto dos últimos detalhes do figurino e às 15h toda a trupe reunida em casa parte para o Anhembi. No caminho, as fichas começam a cair. Finalmente havia chegado o dia tão esperado por mim e pelo André. A sensação era de um dia perfeito.

Enquanto o Denylson fazia o meu cabelo e maquiagem, os meninos da banda tocavam o set do show no camarim. A ideia era entrar a plenos motores. No meio daquilo tudo lembrei (como se fosse possível esquecer) que depois de mim, no mesmo palco, usando quiçá o mesmo pedestal que eu, estaria Amy.

Missão: conhecer Amy. Ela foi a cantora que marcou a virada na minha carreira de cantora. Sempre fui fã de soul e blues. Pela música, frequentei igrejas protestantes durante os 5 anos em que morei no EUA. Com o aparecimento da Amy e os holofotes voltados novamente para o soul, achei o meu caminho como intérprete e me encontrei esteticamente com o que mais amo. Minha ansiedade então se dividiu em fazer o show, e tentar conhecer a Amy.

Faltando um minuto pro show começar, estava ainda no camarim. Saí correndo rumo ao palco arrumando os últimos detalhes. Fizemos a nossa tradicional roda e o André fez a preleção. A sensação era de final de campeonato. Finalmente, entramos no palco. Sabíamos que tínhamos a grande função de aquecer motores.

Quando a noite (com direito a lua brilhando do lado palco) enfim se instalou, foi subindo a segunda ansiedade do dia. Comecei a conversar com todo mundo que conheço da produçao pra saber notícias da Amy. Ao final do show da Janelle, fui de vez pro backstage. Estava decidida a fazer o que fosse preciso pra trocar uma palavra com ela, tentar dizer o tamanho do meu amor. Coisa de fã alucinada, fazer o quê?

Começou a correr um boato que ela não queria sair do quarto, que eram dez pessoas tentando convencê-la a fazer o show... Comecei a ver a preocupação nos rostos dos produtores. Por um momento achei que ela não viria. Então de dentro do Sambódromo vejo as giroflex dos batedores de polícia iluminando a Olavo Fontoura. Logo o portão se abre e os músicos descem em direção ao palco. Saí correndo cumprimentando um a um agradecendo por estarem ali. Era quase uma havaiana recebendo os turistas com um colar de flores e dizendo "Aloha!". Os últimos da fila eram Zalon e Heshima, os incríveis backing vocals/conselheiros. Eles estavam cantarolando alguma linha de uma música e eu: "Cadê ela!?" E o Zalon pra mim: "Ela entra pelo outro lado! Sai correndo que você consegue!"

Lá fui eu ainda de salto, me infiltrar no meio da segurança. Só eu no meio de 50 homens de preto, motos da polícia e carros. Os seguranças apontavam pra mim e diziam: "Watch her! Watch her!". Expliquei que era inofensiva, e quando ela sai do carro cercada por todos os lados, o André aparece atrás de mim e me ergue nos braços, eu rápido gritei: "Baby, I love you!" Ela então virou o rosto, me mandou um beijo com a ponta dos dedos e seguiu para o palco. Morri. Ou melhor, nasci. No final as únicas gotas que caíram na noite foram as minhas lágrimas enquanto ela cantava Me and Mr Jones.

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