Era um garoto que amava Yoko. E a paz

Aos que ainda têm um certa preguiça do casal aí ao lado, vale ver Os EUA X John Lennon. Conceitos podem mudar

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Do alto de uma fértil plantação de exemplos para sustentar sua teoria, Zé Rodrix costumava definir a canção como a mais sintética ? e também a mais perfeita ? dentre todas as manifestações artísticas. Pena que meu amigo e nosso ídolo não esteja mais entre nós e, assim, tenha perdido a chance de encontrar bons argumentos na prática para reforçar sua teoria apaixonada.

O parceiro de Tavito em Casa no Campo teve, como muitos de nós, o privilégio de, na flor da juventude, conviver com o maior fenômeno da indústria fonográfica desde seu auge nos anos 60 até a decadência destes dias: os Beatles. Mas perdeu a oportunidade de acompanhar o que agora é testemunhado pelos espectadores do documentário Os EUA X John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld: a militância pacifista do garoto que saiu de Liverpool para conquistar o mundo e suas consequências sobre o projeto de vida pessoal do beatle. E ? ainda mais que isso ? o impacto causado na mobilização interna americana contra a intervenção bélica no Vietnã por sua até então inusitada postura política e pelo refrão Give peace a chance (Dê uma chance à paz).

Com Sergeant Pepper"s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967, os Beatles viraram o planeta de pernas para o ar no que concerne à música de consumo, aos costumes e à moda, em plena era da "aldeia global". Isoladamente, contudo, os Beatles não participaram da efervescência política dos anos 60, para cuja denominação de "rebeldes" o grupo de roqueiros cabeludos contribuiu. George Harrison chegou a se envolver com benemerência, ao organizar o Concerto para Bangladesh. Mas só Lennon se meteu com política. A virtude desse documentário é mostrar como isso se deu e, sobretudo, como pode um menestrel abalar o Império.

Como Walter Cronkite, o grande âncora da televisão americana, mostrou em seus comentários da época e no depoimento que deu depois, a causa do Vietn foi desde sempre perdida, porque os EUA não defendiam no distante Sudeste asiático uma democracia da ameaça da tirania comunista, mas, sim, uma monarquia despótica, cruel e retrógrada. O documentário mostra - de forma interessante e comovente ? como se deu a politização de Lennon. Fica clara para o espectador antenado a ativa participação da filha de um banqueiro japonês, Yoko Ono, no processo de "desalienação" do herói da classe operária de Liverpool.

Pivô. A artista plástica que foi apontada como pivô da separação da maior banda de música pop da história e anatemizada pelos gritinhos em suas gravações e pela foto em preto e branco do casal nu na capa de um disco-solo dele o acompanhou à América. Sentindo-se em casa em N Y, o europeu e a oriental fizeram uma imersão plena no movimento pacifista, tornando-se íntimos de líderes alternativos como Abbie Hofman, fundador do Partido da Juventude Internacional (os Yippies), e Angela Davies, militante do grupo racial Panteras Negras.

O auge da militância pacifista de Lennon poderia ter sido a libertação de John Sinclair, preso por ter oferecido dois baseados de maconha a uma policial disfarçada. Mas ele chegaria mais longe, ao virar o jogo contra o governo Nixon, que tentou deportá-lo, vencendo uma ação na Justiça contra o establishment ianque.

O Império perdeu a guerra na Ásia e para o beatle nos tribunais. Lennon foi assassinado pela força da própria fama. A ironia da deusa da história elimina vilões, mas tampouco poupa heróis.

Razões para ver

1. Agilidade. O ritmo das entrevistas é frenético, a edição é ágil. Ou seja, não se trata aqui de um documentário que dê sono.

2. Cheiro de novo. Não chove no molhado. O episódio de como os EUA declararam guerra a John Lennon não havia sido contado com tantos detalhes até então.

3. Intimidade. Rara chance de ver Yoko Ono falando de John Lennon (ela se nega a entrar no assunto em suas entrevistas). Em alguns momentos, chega a ser comovente.

José Nêumanne, Jornalista e Escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

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