Era para ser um fiasco. Até que...

Era para ser um fiasco. Até que...

Era como se nada tivesse acontecido poucas horas antes na vida de Ray Charles. Guiado por seu assistente, o pianista surge no palco do antológico Olympia, de Paris, contorcendo-se de euforia, como sempre fazia diante de suas plateias. Senta-se ao simples teclado Yamaha, um pouco à frente de um trio timidamente posicionado no centro do palco formado por baixista, guitarrista e baterista, e já ataca com o tema instrumental Blues for Big Scotia, de Oscar Peterson. O público retribui, mas sente que aquele é um show diferente. Afinal, onde está o grande piano negro de Charles, onde estão suas inseparáveis garotas do Raelettes para cantar Hit the Road, Jack? E aquela banda? Os rapazes são competentes, mas que fim levaram os metais?

Júlio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

A apresentação que Ray Charles fez em 2000, no Olympia, lançada agora em CD e DVD, ficou histórica não só pela comoção que sua voz e suas mãos transmitiram mesmo quatro anos antes de sua morte, provocada por uma doença no fígado. Charles estava ali na raça. Por causa de uma greve no aeroporto de Lisboa, a versão completa de sua banda, incluindo as vocalistas, não conseguiu chegar a tempo. Charles fez adaptações em seu repertório (tirando, por exemplo, Hit the Road, Jack) e se jogou em uma grande performance.

Outro detalhe fez com que Ray Charles lutasse para chegar até o fim daqueles 70 minutos de música. Havia sido ali mesmo, 40 anos antes, que ele fizera sua primeira aparição em um palco da Europa. O Ray Charles de agora, embora não dissesse isso com todas as letras, voltava para se despedir. Ao entoar Route 66, um rhythm and blues de Bobby Troup no qual tanto se divertia abusando da quebradeira rítmica que fazia com graves, médios e agudos, o pianista se esforçava para fazer sua voz chegar onde antes ela reinava. Ray parece cansado, ofegante, só cantando as frases mais necessárias. A boa notícia é que aquilo ali era apenas a terceira música.

Ray Charles, o dos solos, risos e gemidos, chega mesmo em uma sequência com Hallelujah I Love Her So, Georgia On My Mind, Stranger in My Own Home Town, Angelina e I Got a Woman. Quando sente que contaminou seu público, deixa a alegria transparecer em urros, bate a palma das mãos nas pernas e sorri no meio das músicas. Sem as Raelletes no apoio, segue o tempo todo as deixas do trio que o acompanha, um guitarrista esperto em blues e improvisos, um baterista apenas discreto e um baixista virtuoso mas por vezes protagonista demais para tocar com Charles, que usa um instrumento elétrico bastante alto (ao contrário dos baixos acústicos que fizeram muitas camas para a voz e o piano de Charles).

Charles não fica só em suas criações. Executa Hey Girl, da americana Carole King, e Just For A Thrill, de Louis Armstrong. Antes que o público se lembre de que faltou algo no repertório, agradece a sua plateia, se levanta e procura pelo assistente, que o retira de cena. Ray Charles deixa o palco do Olympia em uma situação muito diferente daquela em que chegou, quando parecia frágil e carente de companhia. Em pouco mais de uma hora de show (ao menos foi isso o que foi aproveitado para o DVD), faz a plateia esquecer das Raelletes, dos sopros, do piano negro. A verdade é que, desculpem os músicos, Charles poderia ter encarado tudo aquilo ali até mesmo sozinho.

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