Era de Temores

Alvo de polêmica no seu lançamento na França, em 2006, Os Fanáticos, de Max Gallo, expõe espiral de preconceito

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Sombria a Europa de nossos dias. Encerrados os "anos gloriosos" do pós-guerra, perdida a pujança econômica e a hegemonia cultural, vive-se no Velho Mundo uma era de temores. O inimigo: a globalização. O medo: do estrangeiro, do outro, das perdas identitárias e da decadência de uma civilização que forjou o Ocidente tal como o conhecemos. Essa preocupação se faz cada vez mais nítida na produção artística. Na TV, no cinema, na literatura, o receio da invasão estrangeira se reafirma como a marca dos nossos dias na Europa.

Esses elementos estão reunidos no penúltimo romance do jornalista, escritor e historiador Max Gallo, imortal da Academia de Letras da França. Os Fanáticos, lançado agora no Brasil, quatro anos depois de sua versão original, conta a história de Julien Nori, catedrático de História Romana da Sorbonne. Homem de letras na faixa dos 50 anos, é colecionador de amantes e morador do Quartier Latin parisiense, um punhado de quarteirões que denomina o "círculo sagrado de Paris", ladeado pela catedral Notre-Dame, pelo Sena e pelo Panthéon. Em síntese: é um francês de elite e um intelectual realizado.

Esse acadêmico, "fiel à Reforma, às Luzes, a Voltaire", e portanto um devoto da Razão e dos símbolos do Estado Moderno, tem uma filha: Claire. Pois a jovem instruída, bem-formada, parisiense até os ossos, casa-se com Malek Akhban e - pecado supremo - converte-se por livre escolha ao Islamismo. Então, abandona seus costumes, sua identidade e seu nome, para se tornar Aisha. Eis o drama de Os Fanáticos: um pai súdito do Iluminismo confronta-se com "as trevas" do mundo muçulmano em pleno bairro chique de Paris e, pasme, é assassinado em um crime envolto de suspeitas de terrorismo.

Clichê? Pois prepare-se: o livro de Max Gallo é repleto deles. O genro de origem árabe e muçulmano encarna "a força", é "o culpado, o manipulador". Das suas mãos, Nori "precisa arrancar" Claire-Aisha, a filha inocente, presa ao fanatismo (sua droga) e a uma relação na qual o amor não existe, mas sim "a fé, o jejum, o mês de ramadã, a peregrinação a Meca" e o ""quinto pilar do islã": a esmola".

Ao longo de Os Fanáticos, o autor explora os estereótipos à exaustão. Se concede raros elogios ao passado nobre da cultura oriental, Nori prima pela apologia do cristianismo, "a religião da liberdade individual, uma afirmação do livre-arbítrio". Uma posição, digamos, contraditória para um seguidor de Voltaire, um dos intelectuais que lançaram as bases do Estado laico. Gallo, ou Nori, adverte que "os fanáticos" "se estabeleceram no núcleo do nosso sistema, usando-o com habilidade e rejeitando-o, procurando impor sua lei e sua fé". São o cavalo de Troia instalado no interior da cidade.

Desnecessário entrar em detalhes maiores sobre o enredo do livro. O que conta no romance, mais do que sua história batida, é sua ambiência real. Escritor experiente, imortal da Academia Francesa, Gallo protege-se das crítica antes mesmo do início da narrativa. "Romance = "mentir na verdade"", diz ele, advertindo que "qualquer semelhança...". Mas a ressalva não serve de escudo para proteger sob o véu da ficção o pensamento reacionário do autor.

Por trás de seu romance está uma França que choca: a do preconceito crescente em relação ao islamismo, a segunda maior religião do país. Tal como os judeus na Europa do entre-guerras, os muçulmanos - ou os "sales arabes", os "árabes sujos" - são o bode expiatório da vez. Como Gallo-Nori, o francês reacionário não gosta da ideia de que a Grande Mesquita e o Instituto do Mundo Árabe estejam construídos nas imediações do Panthéon e do sítio de Cluny, símbolos da França original.

Quando de sua publicação, em 2006, Os Fanáticos se tornou alvo de um princípio de polêmica na França. Sem surpresas, o autor foi bombardeado de acusações pela comunidade muçulmana do país, que lhe reservou definições como "revisionista", "neoinquisidor" e "imperialista", chocada com o reducionismo das ideias de Nori. Também sem surpresas, Gallo apelou em artigo publicado no jornal Le Figaro à liberdade de pensamento, ao rompimento diante do politicamente correto. "Como ser razoável, procurar o apaziguamento, manter um discurso comedido, esperando que os que querem modernizar o islã vençam os que têm o objetivo de islamizar a modernidade?", questionou.

Escritor mais apreciado pelo público do que pela crítica, Gallo, um ex-porta-voz da presidência socialista de François Mitterrand, também passou por uma conversão. Em 2006, revelou-se ao trocar o Partido Socialista pelo neoconservadorismo de Nicolas Sarkozy, propositor de fartas políticas policialescas de fundo xenofóbico. Na mesma época, em Os Fanáticos, Gallo ajudou a desvelar o pensamento de uma fatia significativa da sociedade francesa: aquela que busca reencontrar sua "identidade" e que mergulha, dia a dia mais fundo, na perigosa espiral de rejeição ao outro.

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