Era 'crossover'

Uma lógica perversa, que tira o espaço de quem de fato precisa

O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2013 | 02h10

ANÁLISE: João Marcos Coelho

Parece que o conceito de música clássica nasceu em 11 de março de 1828, em Berlim, quando Mendelssohn regeu a Paixão São Mateus escrita por Bach em 1727. Ela foi trazida de volta à circulação porque era genial demais para ser esquecida. Clássico, portanto, é o que permanece no tempo por sua qualidade de invenção. Quando músicos populares recebem encomendas de sinfônicas para escrever "concertos", inverte-se o processo. Estes permanecerão por sua criação popular, e não por esses acidentes de percurso. Mas bloqueiam-se jovens compositores que só têm nas orquestras veículos para sua criação. É perverso. As orquestras conquistam públicos mais amplos, vendendo-lhes alhos e entregando bugalhos.

A Osesp, com Neschling no comando, deixava os concertos pop para o fim de ano. Agora não: eles estão na temporada oficial. Dá dó ver violonistas como Douglas Lora e João Luiz ou Paulo Bellinati em obras em geral sem a mínima consistência. Macaqueia-se por aqui a moda nos EUA de "inclusão" indiscriminada da música popular na música de invenção. Por lá, clonam-se mal e porcamente as músicas populares e as vendem como música de invenção. A tendência é duplamente perniciosa, pois dá espaço a quem não precisa e fecha as portas a quem estuda a vida inteira para compor para uma orquestra.

Gilberto Mendes já repetiu várias vezes: você pode trabalhar a partir de células, inflexões ou cacoetes da música popular, mas não cloná-la. Hobsbawm tem razão quando diz que a cultura de massa precisa de "certa margem de criação genuína, única coisa capaz de fornecer a matéria-prima que ela possa processar. Isso se aplica especialmente ao suprimento de novo material, que dá ao artista espaço muito pequeno dentro do espaço produtivo real". Por aqui, recusam-lhe até mesmo esta migalha.

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