Equívocos da 'pós-contemporaneidade'

Premiado com o Gouncourt, O Mapa e o Território junta todos os elementos de um autor sobrevalorizado: Michel Houellebecq

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

Há cerca de dois anos, as poucas vozes que se erguiam na França e no mundo para suspeitar que Michel Houellebecq talvez não seja William Shakespeare se tornaram voto vencido. Foi quando o mais recente dos romances supostamente arrasadores do apocalíptico escritor - este que agora nos chega em boa tradução de André Telles, O Mapa e o Território - terminou por recobrir-se da glória do Prêmio Goncourt. E vimos confirmar-se nos mais altos foros da cultura letrada francesa as impressões reinantes no noticiário geral, desde o primeiro blockbuster houellebequiano, Partículas Elementares (1998) -, no sentido de que ali estava nada mais nada menos que um autor para a consagração literária no que se desenhava como um desesperançado terceiro milênio.

Com efeito, Houellebecq é o mais sobrevalorizado dos escritores a despontar na virada de século. Como atestam orelhas, quartas capas e os boxes de serviço a que se reduzem atualmente, mujtas vezes, as resenhas de livros. "O Mapa e o Território é um romance total, balanço do estado do mundo e autorretrato", dizem uns. Enquanto outros acrescentam: "Houellebecq parece ter compreendido a vida." E outros vão ainda mais longe: "Ele vive na Irlanda, retirado do comércio dos homens."

Que textos de circunstância se apressem em tomá-lo como o maior dos ironistas que nos chegam desde Jonathan Swift e Jorge Luis Borges, passa. Mas a consagração de Houellebecq pela crítica especializada - de que seria de se esperar que pudesse distinguir entre a ira dos deuses e o brado oportunista do demolidor que faz sucesso - é tão constrangedora quanto a primeira das mistificações que O Mapa e o Território nos convida a assinalar. A saber, a desfaçatez do pregador que denuncia a perfeita venalidade do mercado de arte, hoje, por meio de seu protagonista, que é um artista envolvido com reproduções à la Andy Warhol e pensamentos tão negros quanto os que lhe atravessam a mente, ao mesmo tempo em que se locupleta nesse mesmo mercado.

Muitas outras aguardam aquele que queira ler o novo Houellebecq com o pé atrás do sujeito meditativo a quem não escapa que, muitas vezes, raspando-se o grande cético, se reencontra o conformista vulgar. Até porque o escritor não se acanha de apelar, bem na nossa frente, para todas as soluções de facilidade que os formulários das ficções mais vendidas têm presentemente a oferecer.

Assim, por exemplo, nesta chancelada peça em prosa, o narrador é Jed, um artista plástico conceitual que, além de constatar o fim da era industrial, o aniquilamento generalizado da espécie humana e o triunfo final da vegetação (sic), tem uma série de retratos de personalidades em voga, entre eles, um de... Houellebecq. Isso faz com que ambos encetem relações, o que permitirá ao escritor por trás da ação tomar-se a si mesmo por um Outro, e até morrer a horas tantas. Como se o procedimento não fosse, nestas alturas, a própria imitação da literatura. E como se o sempre assinalado "labirinto de espelhos" que daí decorre não fosse um jargão crítico.

Dentro dessa mesma linha, um outro recurso fatigado e fatigante é fazer Jed-Houellebecq respirar ares de pós-contemporaneidade, cortando e colando da Wikipédia, como quem dá por entendido que, nos tempos que correm, nada mais pode ser, mesmo, autoral. E um outro, ainda, é fazê-lo assumir, numa pequena nota final ao leitor, que os verbetes da internet foram "inspiradores" e que, embora ele, Jed, não seja de agradecer a ninguém, porque não se documenta tanto assim, para escrever, quanto os americanos, quer agradecer a colaboração da rede. Maneira de piscar para nós, leitores, que a máquina escreve. Como se já não o soubéssemos desde Raymond Queneau.

Diante de tudo isso, o desafio que se coloca, finalmente, para o leitor de O Mapa e o Território é o de compreender o Goncourt. Como pode ser que uma junta de experts que responde pela mais importante premiação literária na França, cujo nome evoca as cercanias de Gustave Flaubert, de quem os irmãos Goncourt foram próximos, tenha comprado a ideia de que o mundo desbussolado aí fora é o território, e o romance de Houellebecq, o mapa-múndi?

Aqui, pode continuar valendo certo murmúrio de Baudelaire a respeito da Legião de Honra, em seu diário Mon Coeur Mis à Nu, que, aliás, nos deixa reavaliar todos os descasos cometidos contra todos os não laureados do Nobel e do Oscar, de Borges a Haroldo de Campos, passando por Hitchcock: "Se um homem tem mérito, para que condecorá-lo?" Sartre lhe daria consequência, em 1964, ao recusar o Nobel de Literatura, considerando que láureas, mesmo quando honoráveis, transformam o escritor em instituição.

Mas Hitchcock também pode ajudar: os gritos de pássaro ferido na célebre sequência do assassinato em Psicose são glissandos de violino! Não há violino em Houellebecq.

É PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA PUC-SP E AUTORA, ENTRE OUTROS TRABALHOS DE ROLAND BARTHES - UMA BIOGRAFIA INTELECTUAL (EDITORA ILUMINURAS)

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