Equilíbrio marca disputa para vaga na ABL

Vai ser difícil alguém se tornar imortal hoje, na eleição para a cadeira n.º 19, da Academia Brasileira de Letras (ABL). São quatro candidatos, três homens e uma mulher, a arqueóloga Maria Beltrão, os professores e críticos literários Domício Proença Filho e Antônio Carlos Secchin e o jornalista Márcio Moreira Alves, que formam um grupo tão equilibrado que os próprios acadêmicos acreditam que nenhum deles terá os 18 votos (metade dos eleitores, mais um) necessários para ocupar a vaga do professor Marcos Almir Madeira, que morreu em outubro. Os quatro candidatos são conservadores quanto às chances. "Tenho otimismo cauteloso", diz Secchin. Apesar de ser um homem de letras, faz cálculos matemáticos. "A decisão deve vir no terceiro ou quarto escrutínio. Dificilmente, um de nós terá os 18 votos no primeiro e no segundo, mas só passam adiante os que tiverem 10 votos. Aí tenho chances de manter uma tradição. Sou titular de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro e meus antecessores foram Alceu de Amoroso Lima e Afrânio Coutinho, ambos acadêmicos. Mas, se três tiverem 10 votos no terceiro escrutínio, dificilmente um somará 18 votos no quarto e aí ninguém se elege." Maria Beltrão candidata-se pela segunda vez e era a preferida do imortal que pode substituir, pois foi sua aluna. Para ela, a Academia é uma ótima vitrine para divulgar a arqueologia brasileira e o trabalho do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, também da UFRJ, nessa área e outras afins (como a paleontologia, antropologia).O professor Domício Proença Filho é benquisto na Academia, seu nome vem sendo sugerido para candidaturas há pelo menos quatro anos, mas só agora se animou a concorrer. "Ele cumpriu o ritual de visitas e nós vamos esperar os amigos aqui em casa, seja qual for o resultado", disse na terça, sua mulher, Rejane. "É a praxe e vamos seguí-la." Para o jornalista Márcio Moreira Alves, nem a experiência de ex-deputado e repórter político há quatro décadas lhe indicaram o que lhe reservam os acadêmicos. "Eles são educadíssimos, mas muito dissimulados. Recebem a gente com toda a atenção, mas não dão dica de suas preferências", comenta ele. Moreira se esforçou. Foi até os Pirineus, na divisa da França com a Espanha, visitar o escritor Paulo Coelho, que tem casa lá. "Voltei com uma carta com voto nos quatro escrutínios, mas o melhor foi conhecê-lo mais de perto. Já o Paulo Sérgio Rouanet me disse que é amigo dos quatro e vai votar em todos nós. Só me perguntou qual escrutínio eu preferia e escolhi o segundo." A mudança de voto, nos escrutínios e dos que vêm por escrito, é permitida pelo regulamento da Academia, até porque quem não consegue 10 votos nos dois primeiros fica fora dos dois seguintes. E só se elege quem tem maioria simples, no caso atual, 19 votos. Se não sair imortal desta vez, nova eleição ocorre em junho, com os mesmos candidatos, a não ser que algum desista. Na semana que vem, será a vez de se eleger o sucessor da escritora Rachel de Queiroz entre quatro candidatos: Roberto Romeiro Abraão, Ieda Otaviano o publicitário Mauro Salles e o historiador José Murilo de Carvalho. Mas, neste caso, há uma polarização entre os dois últimos.

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