Equalizando pop, kitsch e cult, CD tem achados e xaxado

Crítica: Lauro Lisboa Garcia

O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h07

Referência de cantora "eclética" (que alguns apontam como característica pejorativa), Marisa Monte mantém a dianteira pela força de sua personalidade. Pode fazer o que quiser, atirar para todo lado, que nada parece soar estranho em seu universo particular. Nem é questão de gostar ou não, mas de reconhecer que poucas intérpretes brasileiras (como Elis Regina e Maria Bethânia) exerceram tamanha autoridade sobre o querer e o poder com resultados satisfatórios para o deleite pessoal, seletivo e coletivo ao mesmo tempo.

Seguindo a tendência crescente no pop de Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci (coautores de uma das inéditas, o xaxado Hoje Eu Não Saio, Não), Ortinho, Andreia Dias, Karina Buhr, Pélico e outros, Marisa equaliza em O Que Você Quer Saber de Verdade o pop, o kitsch e o cult (como diria o paraense Felipe Cordeiro). Em comum com os citados, é relevante nela a capacidade de ainda explorar com criatividade as possibilidades sobre um tema que parece inesgotável pelas visões particulares.

Como Karina em Longe de Onde, o título do álbum de Marisa, impecável na produção, sofisticado na simplicidade, insinua uma pergunta, mas é uma afirmação, recado poético (direto ou subliminar) que vai além das obviedades do cotidiano amoroso. É mais amplo na questão de respeito mútuo (que uns chamam equivocadamente de "tolerância"), de valores, de civilidade, ou como ela mesma diz, de "escolhas, desejo, autoconhecimento e liberdade".

Há baladas, sambossa, toada, fox-canção, tango estilizado, um misto de frevo de bloco com baião, ecos de flamenco, brega (sem pudor ou preconceito, vai), xaxado para animar forró, marcha tribalista, valsinha. Depois é uma referência clara a um de seus ídolos, Roberto Carlos. Aquela Velha Canção - destilando ironia em versos como "Não vou te mandar pro inferno/ Porque eu não quero/ E porque fica muito longe daqui" - é brega de ares sertanejos de Paula Fernandes. Combina com chapéu e botas.

Uma das melhores inéditas é O Que Se Quer, com Rodrigo Amarante, que divide a autoria, canta com ela e toca diversos instrumentos. Das várias parcerias tribalistas (com Arnaldo Antunes e/ou Carlinhos Brown), a mais ensolarada e colorida - como o belíssimo projeto gráfico de Giovanni Bianco - é Seja Feliz. Com cara de hit de verão, a canção sintetiza o pensamento carpe diem que percorre o CD: "Seja feliz com seu país/ Seja feliz sem raiz... Tão largo o céu/ Tão largo o mar/ Tão curta a vida/ Curta vida", canta ela, como se fosse uma radiante Gal Costa quando jovem.

As canções já gravadas são reinventadas com toque de Midas, caso de Descalço no Parque (1964), a terceira pepita de Jorge Ben que Marisa tira do precioso baú (antes foram Balança Pema e Cinco Minutos) que ele próprio esconde. A versão em português do tango Lencinho Querido (El Pañuelito, de J.D. Filiberto e G.C. Peñaloza), lançada por Dalva de Oliveira em 1956, é outra pérola - tão peculiar quanto as mais recentes de Arnaldo e Brown, que ela revigora. Entre achados e xaxado, isso é tropicalismo na veia.

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