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Equador quer virar 'laboratório cinematográfico' da América Latina

País criou órgão para incentivar produção de filmes.

Irene Caselli, BBC

16 de novembro de 2012 | 08h48

O diretor de cinema equatoriano Iván Mora levou cinco anos para juntar dinheiro suficiente para filmar Sin otoño, sin primavera.

O projeto teve início em 2007, quando o realizador recebeu uma bolsa de US$ 10 mil (R$ 20 mil) do Conselho Nacional de Cinematografia do Equador para transpor seu roteiro às telas de cinema.

Mora também teve de arrecadar outros US$ 600 mil (R$ 1,2 milhão). Sem tais recursos, a película jamais ficaria pronto.

O filme é uma das 12 fitas que estrearam ou estão em processo de pós-produção neste ano no Equador.

Essa quantidade sem precedentes de projetos cinematográficos nacionais deve-se em grande parte ao conselho estabelecido pelo governo em 2006 com objetivo de impulsionar o cinema nacional.

"O Conselho Nacional de Cinematografia mudou a forma como se filma e se produz no Equador", disse Mora. "Foi como se a água virasse vinho".

Júri latino-americano

A cada ano, um júri composto por cineastas procedentes de vários países da América Latina reúne-se para conceder prêmios a projetos locais em nome do conselho.

Mais de 40 películas e documentários receberam este tipo de ajuda até agora.

"Como os recursos são limitados, a concorrência é acirrada", disse Jorge Luis Serrano, diretor do Conselho Nacional de Cinematografia.

"Nos últimos seis anos, o cinema equatoriano tornou-se uma espécie de laboratório para a América Latina".

Segundo explicou, o número de produções nacionais praticamente dobrou, o que elevou o cinema ao posto de setor cultural mais dinâmico do país.

Para especialistas, trata-se de um avanço sem precedentes para um país com escassa história cinematográfica, em comparação com outros países latino-americanos.

História

Sin Otoño, sin Primavera foi rodado em Guayaquil, a maior cidade do Equador.

O primeiro longa-metragem produzido no Equador, O Tesouro de Atahualpa, estreou em 1924, e retratava o mistério em torno do tesouro do último imperador inca.

Durante toda a década de 90, foram filmados apenas cinco filmes. No entanto, uma delas, Ratas, ratones e rateros, de Sebastián Cordero, obteve fama internacional e é considerada até hoje a estrela da nova era do cinema equatoriano.

Sin otoño, sin primavera é um exemplo da safra recente da qualidade dos longa metragens que atualmente são produzidos no Equador.

A película, que Mora define como uma "balada punk", conta a história de vários jovens de classe média de Guayaquil.

Além da ajuda financeira do Conselho Nacional de Cinematografia, os produtores dizem que o governo equatoriano também vem impulsionando as relações públicas do setor, o que propicia a continuidade de um ciclo virtuoso.

Mais equipe

A oposição equatoriana, entretanto, afirma que o polo cinematográfico, que já consumiu US$ 4 milhões (R$ 8 milhões) de recursos públicos, está sendo utilizado pelo governo para "difundir sua mensagem por todo o país".

O governo nega a acusação, mas, independentemente de quanto dinheiro já foi gasto, os produtores de cinema concordam que agora há muito mais equipe disponível.

Isso porque a administração central emprega especialistas em audiovisual para produzir e editar mais material oficial.

Com isso, o governo conseguiu atrair profissionais treinados do setor.

Mas o cinema do Equador ainda enfrenta grandes obstáculos. Com US$ 700 mil (R$ 1,4 milhão) disponíveis por ano, o Conselho Nacional de Cinematografia tem recursos limitados.

"O fundo é estático, não cresce", disse Serrano. "Isso cria dificuldades".

Problemas de distribuição

Um dos maiores problemas enfrentados atualmente por cineastas e produtores do país é conseguir lucrar, ou pelo menos, recuperar a totalidade do dinheiro investido nas produções.

"Ainda é impossível viver como diretor de cinema", disse Paul Venegas, produtor de "La Llamada".

"As possibilidades de reaver os investimentos, que permitiriam aos produtores reinvestir o dinheiro em novas produções e ser menos dependente do governo, por enquanto, não existem", acrescentou.

A distribuição e a publicidade também são considerados obstáculos ainda a serem transpostos.

Com apenas 220 salas de cinemas no país, o cinema nacional também enfrenta a concorrência das produções estrangeiras.

Segundo especialistas, apenas 4% do que é exibido no país advém de conteúdo nacional.

Mas os cineastas estão hoje mais motivados. Mora financiou parte de seu filme trabalhando como editor de outra fita durante a produção de Sin Otoño, sin primavera.

"A gente não quer dinheiro. Se você quiser dinheiro no Equador, não será diretor de cinema. Somos pessoas que gostam de contar histórias", afirmou. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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