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Equação diferencial

"Nunca houve uma democracia que não tenha cometido suicídio.” (John Adams, segundo presidente norte-americano, em 1814).

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2016 | 02h00

Um momento ilustrativo da consagração de Donald Trump como candidato do Partido Republicano foi o incidente de quinta num voo de Filadélfia, na Pensilvânia, para Syracuse, no Estado de Nova York.

O homem moreno de cabelo cacheado sentou-se ao lado de uma loura no avião. Ela resolveu puxar papo. Ele queria ficar na dele, ocupado com o que escrevia e respondeu, monossilábico, com sotaque.

Ela não entendia o que ele escrevia e ficou nervosa. Entregou um bilhete a um membro da tripulação. O avião atrasava. Começou a se afastar do portão, de repente, voltou. A mulher foi retirada primeiro, tinha alegado estar passando mal. E veio a surpresa: o piloto se aproximou do homem de cabelo cacheado e ele também foi escoltado para fora do avião. Tinha sido denunciado pela passageira por causa daquelas anotações.

Interrogado, caiu na gargalhada: era matemática. O homem é o premiado matemático italiano Guido Menzo, professor da Universidade da Pensilvânia. Ele tentava resolver uma equação diferencial.

Mas a equação que, no momento, não tem solução é a que mistura anti-intelectualismo (álgebra confundida com árabe) à xenofobia vitaminada pela associação ao terrorismo.

Que melhor síntese da campanha do homem que promete excluir 1.6 bilhão de muçulmanos, construir um muro na fronteira do México, instiga violência em comícios e não descarta um ataque nuclear à Europa?

“Sério? E ele pode ganhar a eleição em novembro?” Variações destas perguntas têm dominado conversas entre norte-americanos e estrangeiros perplexos. Eu entendo. Há cerca de um ano, quando descobrem minha nacionalidade, os gringos assumem uma expressão de velório e perguntam o que foi feito do meu país.

O público aperta os cintos para a montanha russa de baixaria que virá no segundo semestre. Hillary Clinton, apesar de sua superioridade completa sobre um empresário escroque e extremista, não é nenhum Barack Obama. Ela é boa de briga e resistente, mas não vai se arriscar em voos de oratória, em parte porque, graças à invertebrada mídia que tanto promoveu Trump, ela é um alvo constante. Trata-se de uma imprensa política que vê equivalência entre os dois candidatos simplesmente porque são os favoritos dos dois partidos. Neutralidade disfarçada de objetividade. A qualquer momento, a gente liga a TV e ouve Trump dizer uma barbaridade diante de um repórter que não contesta ou reage com assombro, indignação. Arrisco dizer que Trump é quem fica assombrado com a facilidade com que mantém em cartaz seu Teatro do Absurdo. Pouco a pouco, desde a semana passada, republicanos vão se transformando em rinocerontes submissos, como no clássico do dramaturgo Eugène Ionesco.

Semana passada, a historiadora de Harvard Jill Lepore, que colabora com a revista New Yorker, lembrou um distante discurso de posse presidencial que nunca se tornou famoso. James Garfield ficou intimidado ao ler os discursos de Abraão Lincoln e quase desistiu de escrever o próprio. Afinal, numa manhã de 1881, disse o que devia ser dito: “A elevação da raça negra da escravidão ao pleno direito da cidadania é a mudança mais importante desde que adotamos a Constituição em 1787.” E, mais adiante: “Ela liberou o senhor e o escravo da relação que era injusta e enfraqueceu os dois.”

Lepore lembra que a questão central na possível elevação da primeira mulher à presidência, num embate com um adversário tão nefasto, é sobre a quem pertence o país. E a quem pertence, no século 21, o direito de governar os Estados Unidos.

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