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Epifania de elevador

São quase dois anos sem dividir o elevador com ninguém. Uma coisa tão trivial, mas que estava fora da minha rotina desde o início da pandemia

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 03h00

Ouço uma voz pedindo: “segura, segura...”

Obedeço.

A garota acelera o passo com duas sacolas de supermercado nas mãos. Abro a porta do elevador e espero ela entrar. “Pode subir também”, diz. 

São quase dois anos sem dividir o elevador com ninguém. Uma coisa tão trivial, mas que estava fora da minha rotina desde o início da pandemia. Meu cérebro processa dados rápidos como “eu estou vacinado”, “ela deve estar vacinada”, “estamos de máscara” e “já passamos um dia sem nenhum registro de morte por covid em São Paulo”.

Obedeço, outra vez.

“Por favor, aperta o oitavo pra mim”, pede. 

Pressiono o botão e ensaio um boa tarde. Ela é mais rápida do que eu. E me conta que precisou ir ao mercado porque nem água tinha para beber em casa. 

Me dou conta que esqueci do meu próprio andar e aperto o botão de um número que já passou. “Te desconcentrei”, ri. 

E naquela risada, abafada pela máscara, tenho uma epifania. 

Será possível identificar e isolar o momento em que a cordinha da paixão é puxada? Ou o segundo exato daquele clique romântico? Será que faz algum barulhinho? Será que o corpo manda algum sinal? E se o elevador parasse agora e eu ficasse preso neste sentimento? E se ela não tiver os dois dentes da frente? Sei lá... estamos de máscara.

Tanto tempo sem me interessar por ninguém. Aliás, tanto tempo sem conhecer ninguém novo. E então, assim de repente, me vejo caidinho pela mulher que carrega duas sacolas de supermercado no elevador.

Esse pode ser o meu momento How I Met Your Mother, a cena que eu vou descrever para os nossos filhos daqui a uns 10 anos. Pode ser o dia em que minha vida mudou para sempre. 

Respiro. Preciso manter a calma. Deve ser carência. Não é possível. E nem faz sentido. 

Qual assunto faria com que essa garota se interessasse por mim? Acho que a gente não pode errar na primeira impressão quando existe alguma fagulha sexual no ar. Será que ainda sei falar de alguma outra coisa que não seja a pandemia?

E se...

O elevador chegou ao oitavo andar. Atrapalhado, saio para segurar a porta. Já sei onde ela mora. Mas ainda não nos apresentamos formalmente. “Se precisar de alguma coisa, moro no segundo andar, no 24, e...”

Outra porta se abre, desta vez a do apartamento dela. De lá, saiu um sujeito de óculos e cabelos encaracolados. “Que bom que você chegou amor. Não aguentava mais de sede..”"

Ela acelera os passos até o sujeito de óculos. Eles trocam um beijinho rápido. Ela me agradece. Ele também. Entro no elevador. E aperto todos os andares de uma só vez. 

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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