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Epidemia de malucos

Não podia ver pia sem lavar as mãos. Imagino sua euforia em tempos de coronavírus

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 03h00

Longe de mim querer ser desagradável, ainda mais num momento como este, em que chatices, aborrecimentos e dramas suplementares não nos faltam, mas desconfio que o coronavírus vai engordar as hostes dos malucos benignos, assunto aqui na semana passada. Sim, é bem provável que o confinamento a que estamos condenados faça proliferar entre nós comportamentos e manias que considerávamos atributos exclusivos de terceiros. Condições para isso, é óbvio, vêm se multiplicando com velocidade quase comparável à do vírus em questão. Mas fiquemos, por ora, com a maluquice benigna que já temos. Basta ver a enxurrada de informações e histórias suscitadas pela crônica da última terça-feira. 

A propósito, para começar, do sujeito que comprava pinturas em feiras de rua para a elas acrescentar detalhes, houve quem sacasse a história de uma senhora que, a bem da moral cristã, usou pincel e tinta para “sungar”, puxar para cima, um decote que num retrato a óleo lhe pareceu raso demais. 

Do amigo e colega Ignácio de Loyola Brandão me veio o caso de um camarada seu que jamais atende o telefone antes de soar o oitavo toque. Por que não antes do sétimo, ou do nono? Mistério. O fato de ser ele, como informa o Loyola, solteirão e misógino, não chega a explicar a esquisitice. Mais esquisito, só aquele sujeito que, também ele vítima de Transtorno Obsessivo Compulsivo, nunca usa a sigla TOC, e sim COT, por lhe parecer obrigatório respeitar a ordem, inclusive a alfabética.

Também o querido Loyola, revelemos, tem lá suas manias. Você talvez não saiba que o autor de Zero gosta de contar algo além de histórias. Passos, por exemplo. Convidado para escrever um livro comemorativo dos 100 anos da Paulista, em 1991, ele está em condições de nos dizer que de uma ponta a outra a avenida mede 3.181 passadas de Loyola. Saiba-se também que, para escrever, tudo no seu escritório tem que estar em ordem. O cesto de papel há de estar vazio. O colunista do Estadão não suporta “livro de cabeça para baixo”, nem “livro magro ao lado de livro gordo”. Alguns minutos de seu dia são gastos em organizar, também, por ordem crescente de valor, as notas de reais que tem no bolso – e mais: em ajeitar as cédulas de mesmo valor conforme a numeração. 

Nesse capítulo monetário, o Loyola faz lembrar um jornalista de minhas relações, que no banheiro não vê chance de as coisas funcionarem se ele não tiver algo para ler, ainda que seja a informação, no toalheiro, de que duas folhas de papel bastam para secar as mãos. Um dia, nem isso havia – e o camarada, em desespero de causa, abriu a carteira, sacou uma nota de 20 reais e se pôs a balbuciar: “República Federativa do Brasil. Banco Central do Brasil. Casa da Moeda do Brasil. Mico-leão-dourado”. Funcionou. Nem foi preciso recorrer às cédulas de 100 (garoupa), 50 (onça-pintada), 10 (arara), 5 (garça) e à de 2 reais, ilustrada com uma tartaruga, como em alusão a intestinos lerdos.

E há também o cidadão belo-horizontino de outros tempos, de quem me dá notícia o Frei Betto. Lá pelos anos 1920, 30, contava o avô do Betto, a figura em questão, toda semana, entrava no Banco da Lavoura de Minas Gerais, ia ao caixa, identificava-se como correntista e pedia para ver se o seu dinheiro estava em ordem. Contava nota por nota, e só então, tranquilizado, autorizava o atendente a recolher ao cofre seus caraminguás. 

Mas voltemos ao nunca assaz citado Ignácio de Loyola, que, toda manhã, espera encontrar o seu jornal tal como ele saiu da impressora, com os cadernos em ordem e sem folhas amassadas, o que pode não acontecer se passou antes um leitor menos cuidadoso. 

Nesse particular, o Loyola teve outrora uma alma gêmea, na pessoa de um cavalheiro – quem conta é o Ivan Angelo – que também detestava ver seu jornal espalhado em cadernos, ou com as páginas fora de ordem. Para prevenir o caos, ele criou o hábito de grampear cada caderno na margem direita, de alto a baixo, tão logo recebia o jornal. 

E não era esta a sua única mania, acrescenta o Ivan: “Funcionário aposentado, ele fazia a barba de manhã, almoçava cedo, botava camisa branca limpa, meias, sapatos, gravata, paletó, pronto para ir trabalhar... e ficava em casa, lendo jornais na sala ou na varanda. Às 5 e meia da tarde, subia ao quarto, tirava os sapatos, a gravata, calçava chinelos, vestia um robe de seda, que ele chamava de chambre, e ia ouvir rádio, à espera do jantar”.

É também o Ivan Angelo quem nos traz outra ilustração de maluquice benigna. Trata-se de uma criatura que ao chegar em casa, tarde da noite, vai limpar a cozinha, desconfiada de que pode ter trafegado ali uma barata. Incapaz de passar por uma pia sem lavar as mãos, é de imaginar o frenesi higiênico que ela estará vivendo nestes tempos de coronavírus. Lava roupa todo dia – não há manhã em que não ponha na máquina os lençóis e as fronhas ainda quentes. E não é pouco pano, pois em sua cama de casal ela e o marido têm, cada um, o seu lençol de cima, a sua colcha, o seu cobertor.

“É para evitar o puxa pra lá, puxa pra cá”, explica o esposo, cujas manias de alcova, em regime de comunhão de bens, não param por aí. Ao se recolher, ele ajeita o seu lado da cama, empilha três travesseiros – e, em vez de se enfiar nos lençóis, vai se deitar no chão, “para esfriar o corpo”. Cama, só no meio da noite, e ainda assim nem tanto, pois deixa os dois pés para fora do colchão – o que, segundo más línguas, seria explicação para o fato de tratar-se de um irremediável pé-frio. 

De manhã, antes de usá-la, ele lava e enxuga a pia. Neurose de limpeza como tem esse casal, convenhamos, talvez nem mesmo uma falecida tia-avó da leitora Denise, a qual, quando já não tinha mais o que esfregar ou polir, fazia uma buchinha de pano para limpar por dentro as fechaduras, daquelas antigas, com chaves enormes.

E há, por fim, curioso além de edificante, o depoimento que me deu a Ana Maria, a qual, acossada por uma fartura de solicitações simultâneas, adotou o hábito de orar enquanto dirige. Só não reza em túnel, por medo de que a conexão com Deus possa cair. Também não reza de ré, pois a palavra remete a retrocesso. Para tais ocasiões, chegou a bolar versões rebobinadas de algumas preces, mas acabou concluindo que arranjos arrevesados como “Deus de mãe, Maria Santa” ou “Tentação em cair deixeis nos não” talvez não soem bem nos ouvidos do Senhor.

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