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Entrevistar

O diálogo não é um desafio de entrevista: é um obstáculo humano e quase universal

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 03h00

Meu canal no YouTube (Prazer, Karnal) e a pandemia estimularam uma nova faceta profissional. Virei entrevistador. Função curiosa para a qual não houve preparo. Não fiz curso, nem sequer li um livro introdutório (algo no estilo “Como se tornar entrevistador”...). Aliás, não existe um curso superior sobre entrevistas. O mais próximo disso é um jornalista que tem de estudar muitas coisas, não apenas a arte de entrevistar. 

Por outro lado, assisti, como você, querida leitora e estimado leitor, a muitas entrevistas ao longo de minha vida toda. Fui entrevistado algumas vezes. A partir dessa experiência, lanço a pergunta: o que é ser um entrevistador?

Eu começaria dizendo o comum: há entrevistadores que têm enorme amor à própria voz, preferindo ouvi-la mais tempo à do entrevistado. São os que se aproveitam de quaisquer deixas e fazem longos comentários pessoais a cada resposta. Em resumo: são entrevistadores que não deixam o entrevistado falar. Sim, feche os olhos e logo lhe vem à cabeça um ou dois tipos assim. 

Há, claro, o entrevistador advogado do diabo. Busca as contradições de cada fala, apresenta provas contrárias ao que foi dito, estabelece as incoerências e, no fundo, “detona” o entrevistado. Há tipos ainda mais complexos, pois montam armadilhas para os entrevistados: colocam no ar um inimigo dele para uma pergunta ao vivo na busca de uma humilhação disfarçada como “debate”. Há os que agridem o entrevistado, inclusive fisicamente. De uns tempos para cá, ser entrevistado tem risco de hematoma. 

Há ainda outro tipo de armadilha com entrevistados: recebo você, deixo-o à vontade, sirvo água e cafezinho, conversa “fiada” enquanto arrumamos as luzes e os microfones. Bem relaxado, o entrevistado emite opiniões variadas e livres, mais “solto” do que se estivesse sendo filmado. Enfim começa a entrevista formal só que os trechos que mais serão aproveitados são os primeiros, quando o entrevistado supunha que ainda não estivesse sendo gravado. É uma entrevista-armadilha, infelizmente real e até comum. 

Uma boa entrevista tem como alvo o diálogo entre uma pessoa e um público. A pessoa é seu convidado e, como tal, merece todo respeito. O público também merece o melhor possível de dados e de informações. O entrevistador é um intermediário que facilita a comunicação entre os dois mundos. A primeira virtude do entrevistador é o controle do narciso. Não pode se comportar como um aluno mais velho que ataca os que estão começando aquele estudo. Existe, diante de mim, um ser humano que tem algo a dizer. Existe um público a quem também eu sirvo. Eu sou a peça mais descartável de todas naquela situação. No máximo, sou um facilitador, um esclarecedor. Assim, cabe a mim deixar a pessoa bem à vontade para ela não se sentir agredida ou constrangida. Há pessoas tímidas e o bom entrevistador deve lidar com isso. Devo também lidar com o respeito ao público. Muitos entrevistados querem apenas falar de coisas positivas e eu posso trazer, com todo respeito, outro olhar. Não creio que um entrevistador bom deva ficar em silêncio quando uma opinião contrária à ética seja emitida na entrevista. Existem dois polos a serem evitados: um é a vontade de destruir o entrevistado, de “lacrar”, chocar, causar impacto e colher likes. Nesse caso, não estou entrevistando alguém, mas “bombando” a audiência do meu canal ou do meu veículo de comunicação. Não entrevisto, apenas miro na minha carreira e nos ganhos da audiência monetizada. Esse tipo de entrevistador é, no fundo, um mercador desonesto. No polo oposto, aquele que concorda com as maiores barbaridades ditas pelo entrevistado, inclusive racismo ou homofobia. Assim, poderíamos dispensar o entrevistador e dizer ao entrevistado: fale o que quiser por todo o tempo que puder. 

Devo pontuar a entrevista com tópicos de interesse público. Devo dirigir a resposta de volta ao tema da pergunta quando o entrevistado foge do tópico. Introduzo algum humor para dar leveza. Confiro ritmo, sem quebrar a cada instante as frases. As técnicas não são fixas, porém se adaptam ao tipo do entrevistado e ao tema. Nunca devo promover “armadilhas” para alguém que aceitou falar comigo. É desonesto. Com frequência, a falta de caráter se traveste de interesses nobres como “interesse do público”. 

A boa entrevista tem um traço de maiêutica socrática: busca a resposta dentro do entrevistado. A boa pergunta tem o traço do mestre de Atenas: revela algo para o público e, igualmente, para o entrevistado. É uma arte de dar à luz, trazer algo à vida, sem fórceps, da forma mais natural possível. 

O diálogo não é um desafio de entrevista: é um obstáculo humano e quase universal. A comunicação é complicada, sempre. Se enfrentamos problemas para diálogos em família, com ambiente reduzido e conhecido, imaginem-se os obstáculos com pessoas mais desconhecidas. 

A favor do entrevistador? Quase todo mundo quer falar, e muito. Adoramos falar de nós mesmos. Tenho entrevistado a quem mal consigo dizer um “boa noite” e dali sai uma saraivada de fatos e histórias. Há pessoas muito divertidas. Outros, um pouco menos. O narciso é universal, inclusive de quem faz as perguntas. O dom do silêncio é algo escasso sob holofotes. Minha esperança é aprender a me ouvir para ser capaz de escutar outros de forma intensa. Acho que é a virtude final de um entrevistador: ser analisado antes de se dispor a analisar alguém.  

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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