09 de dezembro de 2012 | 02h08

Gerald Thomas estava com 10 anos quando começou a frequentar o ateliê livre que Ivan Serpa (1923-1973) dirigia no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Era 1964 e aquilo provocou uma revolução em sua cabeça - Serpa liderou o Grupo Frente, que lutava para estabelecer um novo código visual, uma nova linguagem abstrata na arte brasileira. Outros integrantes eram Hélio Oiticica, Aluísio Carvão, Abraham Palatnik, Lygia Pape, Franz Weizmann e Décio Vieira. "O lugar era horrível, mal cheiroso, mas ali discutíamos obras criadas por ícones como Duchamp, Breton, Magritte", comenta Thomas, um dos principais encenadores brasileiros, criador de uma plasticidade única para seus espetáculos.

Basta folhear Arranhando a Superfície, lançado agora pela editora Cobogó com desenhos e esboços de suas principais montagens, para se ter a certeza. Com organização de Isabel Diegues e textos de Zuenir Ventura e Antonio Gonçalves Filho, repórter do Caderno 2, o livro traz 130 imagens, tanto esboços como desenhos finalizados de ideias que estamparam cartazes de peças de teatro, além de ilustrações para importantes publicações, como The New York Times e Vanity Fair.

Gerald chegou ao Times, aliás, graças à persistência com boa dose de sorte: morando em Nova York em 1980, depois de passar pelo teatro experimental e de encenar as primeiras peças no La MaMa, ele decidiu que colaboraria com o grande jornal. Ligou para lá, foi atendido pela chefe de arte Jerelle Kraus, que se interessou em conhecer seus desenhos. No dia seguinte, como teste, foi desafiado a ilustrar a "perda de identidade" do mundo. Na mesma noite, seu desenho estava na página de opinião e Gerald conseguira um emprego.

A passagem para o teatro foi natural e, nos anos 1980, à frente da Companhia Ópera Seca, ele criou uma estética que elaborava de forma particular os recursos teatrais. São dessa época espetáculos como EletraComCreta, A Trilogia Kafka, Carmem com Filtro, The Flash and Crash Days e Um Circo de Rins e Fígados, entre outros.

Em seus traços, é possível identificar "as figuras simbólicas de um antecessor do surrealismo, o renascentista Bosch, o lirismo de Paul Klee, o espírito revolucionário do suprematista Malevich, a ousadia pop de Rauschenberg e Jasper Johns, mas, principalmente a herança dadaísta de Marcel Duchamp", afirma Gonçalves Filho em seu texto. De fato, a indisposição moral e intelectual parece ser o estado natural de Gerald Thomas, que respondeu, por e-mail, às seguintes questões sobre seu caldeirão de ideias.

Silenciadores de carro que se transformam em mísseis, caixa de ovos que viram apetrechos de usinas nucleares - você tem o dom de transformar o cotidiano no inusual. Como funciona isso, o que atiça sua imaginação?

Eu me sinto um intruso na vida. É como se eu não devesse estar aqui, uma espécie de outsider tentando comparar culturas, observando os defeitos e as qualidades e os costumes, os barulhos e essa paranoia toda, desde o berço até o túmulo. Então, vejo tudo de uma forma vesga (mesmo usando óculos). Ou melhor, vejo como a Susan Sontag veria se ela fosse realmente do teatro ou das artes visuais: uma coisa não é aquela coisa, mas vira outra e, em virando outra, ela vira um travesti. E, em virando um travesti, ela adquire outros dons e outros tons e, portanto, outras formas e conotações. Portanto, se você olhar direito para um silenciador de um automóvel uma vez jogado e amassado na rua, ou abridor de latas jogado no deserto do Afeganistão, nada mais pertinente do que compará-los a soldados ou mísseis, ambos mortos, ambos "disjectados", como teria dito Beckett.

Você se inspira também no som para criar seus desenhos?

Muito! Alguns têm até Wagner rabiscado neles, outros Moonlight Serenade, de Beethoven (não que eu estivesse ouvindo aquilo naquele momento), mas essas sonatas ou óperas me possuem, me possuíram. Música, para mim, vem em primeiro lugar, sempre.

Seus traços já foram considerados expressionistas?

Eu não os colocaria assim. Não sou o Otto Dix ou o Max Beckman ou o Munch. Isso, sim, seria o expressionismo. O que eu faço é uma meleira de café e transformo um Michelangelo exausto e cafeinado olhando para sua Capela Sistina com dois lápis apontados para baixo, que tem uma simbologia forte pra quem conhece a obra de Duchamp. Aqui, como no teatro, eu me referencio muito na própria arte plástica, assim como no teatro, é o teatro que fica sendo a própria referência. É a tal da metalinguagem da qual não consigo me livrar. Merda, não? (risos).

A palavra sempre foi muito importante em seus espetáculos - chegou-se a dizer que algumas peças eram até verborrágicas... Mas, no desenho, sua forma de comunicação é o traço, a cor.

Viu só? É para me vingar daqueles que acham as minhas peças verborrágicas! Mas, veja em Flash and Crash Days, com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres: tinha exatamente 42 palavras do início ao fim, 1h20 de cena. Verborrágico? Não sei, não!

Por que o sangue parece ser importante em sua obra?

Porque tenho horror dele. Medo. Odeio o fato de sermos tão frágeis e ao mesmo tempo um mecanismo tão perfeito e tão incrível, mas que pode dar errado tão de repente, que os maiores médicos do mundo ainda ficam de queixo caído dizendo "mas como é que pode? Justamente ele! Tão saudável e não detectamos nada em nenhum exame!" E todos choram copiosamente no velório. Semana seguinte, ninguém mais se lembra dele e cada um está em seu restaurante preferido, pensando em qual praia de Miami vai fazer as suas compras de Natal!

Ziraldo foi dos primeiros artistas a descobrirem o talento de seus desenhos. Como foi isso?

Ivan Serpa e Hélio Oiticica notaram que eu precisava me aliviar um pouco de tanto Duchamp e Tristan Tzara, tanto Dada e Dada e tanta Bauhaus e Weimar e reconheceram que o Ziraldo poderia me dar um pouco de (Saul) Steinberg. O Ziraldo aceitou a ida de um guri de 13 anos (ou 12) em seu estúdio no Lido e foi extremamente carinhoso. Passei a frequentar aquele lugar. Foi onde eu conheci a Daniela (com 8 anos) e colori parte do Flicts.

Sua agenda parece sempre cheia, não?

Tenho a ópera Ghost Sonata (baseada em Strindberg) em parceria com o baixista do Led Zeppelin (e amigo) John Paul Jones. Ainda insisto em fazer a Strange Tribe, de John Hemingway, que conta as três gerações, começando com Ernest Hemingway. Tenho Os Becketts em Dublin ano que vem (uma réplica do que fiz há 30 anos, no La MaMa: chama-se Apollo Beckett, com a minha companhia de Londres, a London Dry Opera Company, que, aliás, está em turnê com Gargolios, que já esteve em São Paulo). Estou escrevendo uma autobiografia (desta vez é serio: Let's Say it All Started) a ser lançado aqui ou em Londres (só anuncio quando estiver 85% pronto) e um romance, The Lost Case of a Brief Case.

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