Entrevista polêmica no 'Programa do Jô' entra na mira do MP

Ministério Público investiga acusação de preconceito em conversa sobre sexualidade em tribo angolana

27 de novembro de 2007 | 22h04

Cresce a polêmica em torno do Programa do Jô, em que o apresentador Jô Soares recebe o angolano Ruy Morais e Castro, um taxista de Campinas, em São Paulo. A conversa é ilustrada com fotos exibidas em um telão sobre os costumes de uma tribo de seu país, fazendo uma analogia entre o penteado das mulheres e sua sexualidade.O programa, exibido em 18 de junho, e que já está disponível para os internautas no YouTube, causou protestos da embaixada de Angola no Brasil e levou o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro a iniciar uma investigação na Rede Globo, sob acusação de preconceito, conforme notícias divulgadas pela Agência Lusa. O apresentador Jô Soares falou à Lusa nesta terça, 27, que foi mal interpretado e que não houve manifestação de preconceito na entrevista.   Veja entrevista no YouTube  Durante o programa, Morais e Castro afirmou que as mulheres da tribo em questão iniciam sua vida sexual por volta dos 6 ou 7 anos. Em um dos exemplos citados, exibiu uma foto de uma mulher de cerca de 20 anos, usando um tipo de penteado indicativo de que ela teria feito uma incisão no clitóris para se tornar tão "apertada" quanto uma menina daquela faixa etária.A embaixada angolana enviou uma nota à Agência Lusa, criticando o programa: "o apelo ao exotismo, real ou imaginário, foi usado como meio de marketing para vender jornais, programas de rádio ou de televisão de má qualidade". E não poupou o apresentador: "com manifesta conivência do entrevistador, aparentemente apostado em estimular índices de audiência, recorrendo ao primarismo do culto ao bizarro, o entrevistado deturpou e manipulou tradições culturais e costumes locais, dando-lhes colorido anormal".Ainda segundo a Lusa, a queixa apresentada ao Ministério Público foi feita por entidades como o Coletivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, a Casa de Cultura da Mulher Negra e a ONG feminista E'Leèkó - Gênero, Desenvolvimento, Cidadania.DefesaO apresentador Jô Soares disse à repórter Carla Mendes da Agência Lusa, que seu programa está no ar há 19 anos dedicando-se ao combate a todas as formas de preconceito. "Mas, se ao ser mal interpretado, eu ofendi determinados grupos, peço desculpas. Não houve intenção de menosprezar nenhuma mulher no mundo", afirmou."Não entendo como o meu programa pode ser considerado preconceituoso ou racista a partir de uma entrevista a um homem simples, quase simplório, comentando os costumes anacrônicos de uma tribo africana", disse o entrevistador."Mas não posso concordar, em nome do multiculturalismo, com hábitos de um homem ter relações sexuais com meninas de sete ou oito anos, e também não posso ser a favor de que mulheres decepem seu clitóris para dar maior prazer aos homens", ressaltou."O meu programa é um dos que mais defende a mulher contra a violência. Não entendo como acontece uma tempestade em copo d'água. Estão usando um episódio não importante para dizer que é uma forma de racismo. Asseguro que não houve manifestação de preconceito", disse o apresentador.Caso seja comprovada irregularidades no Programa do Jô, a procuradora Márcia Morgano poderá entrar com uma ação na Justiça ou fazer apenas uma advertência ao programa e à emissora.

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