ENTREVISTA-Para Borges, futuro da moda brasileira é o exterior

2016 será o ano da moda brasileira noexterior, prevê o visionário Paulo Borges, que aposta suasfichas no setor desde os anos 1980, quando falar de modanacional ainda era considerado "uma grande bobagem". Ele é o idealizador do maior evento de moda do país, o SãoPaulo Fashion Week, que começa sua 24a edição bianual naquarta-feira, no pavilhão da Bienal, parque Ibirapuera. O que era antes um evento de três desfiles em três noites,em 1994, então chamado Phytoervas Fashion, pulou dos 300 milreais em investimentos para 6 milhões de reais, 40 desfiles eseis dias. Borges sempre fez planejamentos a longo prazo. Se aprimeira década do SPFW tinha como objetivo a construção de umcalendário de moda e a profissionalização do setor, a segunda eatual etapa é a concentração na qualidade da criação, doproduto final e do investimento. "E a terceira etapa é a distribuição, é a consolidaçãodisso tudo", resume Borges, citando o ano de 2016, quando oevento entra na segunda década. "É quando você consegue distribuir a sua moda para o mundointeiro ... É você chegar em todos os lugares e ver as lojasbrasileiras, os corners de marcas brasileiras em todas as lojasde departamento do mundo, é ter anúncios dessas marcasbrasileiras nas revistas internacionais", diz Borges, em umaentrevista recente na Bienal, em meio a marteladas dosoperários que preparavam o prédio para o evento. Antes de tomar o mundo de assalto, no entanto, é a"qualidade de investimento" o assunto da temporada, com achegada de grupos investidores que, para muitos, levará a modabrasileira para outro patamar. O ano começou com chegada de uma grande gestora de marcas,a Identidade Moda, que comprou as grifes de dois dos estilistasmais famosos do país -- Alexandre Herchcovitch e Fause Haten.Outro grupo de investidores, que tem também a participação deex-sócios de bancos, criou a gestora de grifes In Brands, comnomes de peso que desfilaram no SPFW. "Isso (investimentos) vai mudar a fotografia da modabrasileira porque vai dar uma musculatura e um crescimento paraessas marcas de forma muito forte, muito rápida e muitoplanejada", afirma Borges. VOCAÇÃO PRODUTIVA Para ele, um dos pontos importantes para o longo caminho deinternacionalização é trabalhar o antigo conceito de parqueindustrial que, segundo ele, "está agora solto pelo mundo". "Hoje você já tem nomes, no caso da moda no mundo inteiro,que produzem em qualquer lugar do mundo ... Hoje você temprodução da Zara sendo feita no Brasil, e você vai ter produçãode brasileiros sendo feita na Itália, Portugal, Espanha, China,Índia. Porque isso encurta as distâncias de distribuição",explica. "O que vai acontecer como transformação no caso industrialsão as vocações produtivas. O Brasil vai tomar algumasespecializações e vai poder fornecer produção para determinadosmercados onde possa ser mais competitivo. Esse parqueindustrial vai virar quintal do mundo também", acredita. Da mesma forma que a chegada de grupos de investimentoaconteceu na Europa há 20 anos, espera-se que a consequenteinternacionalização das marcas européias também seja umarealidade para as grifes no Brasil. "Você tem que pôr um tijolinho atrás de um tijolinho",explica Borges sobre sua paciência e perseverança em tantosanos no mercado. "Quando eu comecei a trabalhar com moda, em 1980, ninguémacreditava em moda no Brasil. Ninguém. Falavam que eu era loucode querer fazer um calendário de moda." (Edição de Maria Pia Palermo)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.