HISTÓRIA DO CABELO

25 de setembro de 2011 | 03h07

Autor: Alan Pauls.

Tradução: Josely Vianna Baptista

Editora: Cosac Naify

(168 páginas, R$ 65)

Escritor argentino

O escritor argentino Alan Pauls, autor de O Passado (2003), novela vencedora do prêmio Herralde e adaptada para as telas do cinema por seu conterrâneo Hector Babenco, lança no Brasil História do Cabelo. A obra faz parte de uma trilogia com foco nos anos 70 na Argentina que começa com História do Pranto, "uma espécie de educação sensível", nas palavras do próprio autor. História do Cabelo traz uma sucessão de pensamentos sobre a imagem e a auto-percepção e se lapida pelo momento social e político no qual o narrador está inserido, e termina com a História do Dinheiro, ainda sem lançamento previsto no Brasil. A trilogia é lançada no Brasil pela editora Cosac Naify.

Mantendo a mesma narrativa frenética de História do Pranto, distribuída em parágrafos longos e frases rápidas, o autor narra neste segundo livro fragmentos da vida de um homem prestes a ter seus cabelos cortados em um salão escolhido ao acaso. O leitor é levado por um turbilhão de reminiscências sobre sua infância e adolescência, nos anos de endurecimento do regime totalitário em seu país, onde as manifestações encontravam terreno fértil para surgir sob um aspecto político e ideológico. O cabelo, aqui, é a própria manifestação da obsessão do narrador, que pode ser também interpretada como a obsessão que escora toda forma de militância.

Como foi o projeto desta trilogia? Por que o cabelo?

Eu sabia mais ou menos na minha cabeça. A história do cabelo é parte de uma trilogia que começou com a História do Pranto e termina com História do Dinheiro, três elementos pelos quais contemplo e analiso os anos 70 na Argentina. O cabelo é um elemento de época muito forte para mim. Ao mesmo tempo um fator biológico, uma parte do corpo e um objeto cultural fortíssimo. Os mitos, os valores. É um objeto que tem um papel fundamental, de uma certa forma, e representa muito a história de um povo, de um lugar. Sempre me interessou fazer a leitura da História através de um elemento. Foi o que fiz com o pranto, o que faço neste livro com o cabelo e o que farei, para completar, com o dinheiro. O cabelo em particular na Argentina, nos anos 60 e 70, teve uma imagem simbólica muito forte. Ligado ao narcisismo, mas em certo sentido um campo de batalha. Existe um cabelo burguês, outro revolucionário.

E este pano de fundo entra no livro com o mesmo personagem da História do Pranto?

Sim, com este mesmo personagem que percorre os três livros, traço um panorama desta década na Argentina. É um menino ruivo que quer ter uma ideologia e o cabelo exerceria um papel fundamental. O ideal da época é o cabelo afro, e isso é uma questão para o personagem, uma vez que as características biológicas dele impedem que isso aconteça - que seu cabelo tome esta forma black power. E o ideal fica com uma espécie de limbo. O personagem se dá conta de que nunca terá o cabelo que poderia transformá-lo naquela classe.

O livro é praticamente voltado inteiro para esta obsessão do personagem. A angústia é muito bem relatada.

Sim, porque ele fica tentando conquistar este cabelo revolucionário. Como se sente fora de classe, fica obcecado. É por isso que tem este ritmo ansioso que é muito bem percebido.

Você acha semelhante se fosse uma mulher? Cabelos de homens e mulheres estão inseridos no mesmo contexto?

Não, sempre me interessaram mais os cabelos dos homens. As mulheres têm outra relação, é completamente diferente. Desde a relação com o próprio salão, que se transforma em um ambiente social para elas, uma espécie de teatro, uma relação muito intimista com o/a cabeleireiro/a. Para os homens, é diferente. Eles chegam cortam e pronto. Uma atitude básica - quanto antes terminar, melhor. Os homens não gostam muito de falar sobre o cabelo, é algo muito problemático - quase um preconceito.

Engraçado como você fala sobre o cabelo...

É engraçado. O cabelo é praticamente a única parte do corpo, isso me dei conta ao longo do livro, que nunca se modifica depois de cortado. A unha, sim, se tira e fica lá mas amarela, é algo nojento. Os cabelos são diferentes. Há pessoas que dizem que os cabelos são órgãos sexuais externos. Durante a História, o cabelo tornou-se algo muito significativo. A trama de Sansão e Dalila, por exemplo.

Em todos os seus livros, os personagens principais são sempre femininos e fortes. Neste caso, é um homem, e as pequenas intervenções das mulheres são sempre para derrubar a masculinidade do homem, não?

A diferença é que a mulher do protagonista se comporta completamente natural. Faz as coisas sem embromar muito. Para o homem, é mais difícil, pois tudo se transforma em um problema.

Para você, as mulheres são misteriosas? Você relatou isso quando soube que teria uma filha, talvez assim descobrisse este mistério.

O problema é que os homens acham que sempre há algo a mais. Está em sua imaginação e me decepcionei ao descobrir que era simplesmente aquilo. Parei de rotular. Digamos que há maneiras diferentes de se comportar. Simples assim.

Em História do Dinheiro, poderemos esperar muito mais de política?

Não, não mais do que nos outros, acho. Todas as três histórias podem ser lidas politicamente, talvez a do dinheiro seja mais explícita. Mas, na História do Pranto, a trajetória de Pinochet é um dos temas. O que importa é como isso se articula com as relações mais particulares.

O que você pensa dos papéis dos editores? Maria Kodama, mulher de Jorge Luis Borges, parece ter um projeto de resgatar o original que ele deixou, mas sem nenhuma edição.

Não, neste caso acho que não procede porque ele não acreditava em originais. Para mim, os livros nunca são lidos nas literaturas originais. Sempre existem as traduções etc., mas acho que faz parte da obra prima do livro. Particularmente, escrevo muito solitário e sempre tive sorte com meus editores. Eles são fundamentais. Em História do Pranto, escrevi que a criptonita verde era a mortal, e na verdade é o oposto, mas eu decidi deixar como está. Os três livros trabalham muito com as memórias, e esta operação sempre fracassa para nós, humanos. Prefiro que todo o processo fique registrado no livro como uma espécie de erro.

Você se preocupa com o que os críticos vão dizer?

Não me importo, não. Fico ansioso, mas acho que eles estão no papel deles. A não ser que a crítica não tenha cabimento. Desejo muito que minha escrita chegue aos leitores. São poucos, os críticos literários. E, o que é mau, já não é um crítico, mas um comentarista. Minha expectativa é conversar sobre literatura. Se isso acontece, é ótimo. Funciona como um intercâmbio.

Já teve alguma surpresa com algum leitor?

Com O Passado, sim. Foi um episódio muito cômico. Para mim, o livro era um romance típico do século 19, então não acreditava encontrar leitores jovens que gostassem dele. Certo dia, eu estava em um show da banda Massive Attack, quando um jovem com uma lata de energético passou por mim e disse: "O Passado! Genial!" Com certeza ele não lê com frequência este tipo de livro e aquilo foi incrível. Um jovem com pouco contato com a literatura me falando aquilo. É um livro, para mim, muito denso. O Passado foi quase um manual de autoajuda, muitos me diziam que o casamento tinha sido resgatado por causa do meu livro (risos).

Você acredita que o livro pode não ter um futuro? As pessoas vão preferir ouvir você falando do que ler seu livro? Você tem algum aparelho tecnológico?

Tenho um aparelho de mp3, e acho que é o máximo de tecnologia que permito entrar na minha vida. Evidentemente existe uma inflação da imagem do escritor. Ele se converteu em um personagem público. Sim, acredito que nos últimos 15 anos as coisas mudaram um pouco na literatura. Mas eu não sou apocalíptico, não acredito que os livros vão deixar de existir. Talvez eles mudem de uso. O livro mais antigo tem 500 anos - não acredito que isso vá mudar muito. A grande vantagem do livro é que você pode levá-lo a qualquer canto, molhá-lo até. Talvez mude o formato. Não sei. São muitos argumentos a favor do livro em papel no momento atual. Não acredito no progresso no sentido de substituição. Eu comparo o livro com um objeto qualquer, como o sapato por exemplo. E cada forma tem seu valor.

Você pensa mais no futuro ou no passado?

(Silêncio) Mais no passado.

Você tem medo de envelhecer?

Não. Tenho medo da deterioração. Sou hipocondríaco, mas isso é outra coisa. A doença me interessa porque é um estado de transformação. Voltando um pouco, o cabelo, neste caso, é o último a ir embora. Pensei muito sobre isso quando escolhi este elemento para o livro. O cabelo não acaba. Está lá, depois de cortar. Intacto. Eu tenho uma visão muito louca da minha vida. Penso que nasci velho e que fui rejuvenescendo durante o tempo. Conheci as drogas mais tarde, vivi muito em bares bem mais velho. Uma coisa que não gostaria de perder é a minha visão e de apresentar problemas neurológicos. O resto não me importo.

Se não vivesse em Buenos Aires, onde seria outro lugar em que se sentisse em casa?

Berlim. É um projeto, na verdade. Tenho um plano de passar um ano em Berlim. Minha filha já é grande, não tenho nada que me segure aqui. Mas gosto muito de Buenos Aires. Acho que Berlim é o único lugar que poderia competir com aqui.

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