Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Entrevista: 'Minha percepção mudou depois que fiquei um tempo no Xingu'

Cao Hamburger faz de filme um épico intimista com heróis desgarrados como os do Ano

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2012 | 03h08

Cao Hamburger pertence a uma categoria especial de diretores/autores do cinema brasileiro. Trafega entre blockbusters, filmes de grande orçamento, e o tipo de cinema brasileiro autoral que atrai os mais importantes festivais de cinema. Xingu, como seu longa precedente - O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de 2006 -, integrou a seleção da Berlinale. Em São Paulo, Cao contou por que fazer este filme se tornou tão importante para ele.

Você faz a distinção entre encomenda e convite. Xingu nasceu de um convite da O2. Como foi?

Faço a distinção porque a encomenda carrega uma conotação pejorativa que não é o caso. Ninguém me disse o tipo de filme que devia fazer nem o Fernando (Meirelles), e ele é um produtor e diretor experiente. Foi um convite. O Fernando havia sido contactado pela família Villas Bôas, na (empresa) O2. Eles ofereciam o livro e prometiam abrir seus arquivos. Li o livro (A Marcha para o Oeste) e é uma história fantástica. Me interessei pelo assunto, mas impus condições. A família deveria se manter afastada, sem interferir, e eu queria ampliar minha pesquisa, buscando outras fontes.

No final, você redigiu o roteiro com uma colaboradora de longa data. O que Anna Muylaert traz para você?

A Anna é amiga, uma grande diretora e tem um olhar certeiro. Ela é sucinta e já escreve pensando no cinema. Nunca tivemos atrito, Anna não busca intervir na autoria do filme, não tenta deixar sua marca, mas é por isso mesmo que deixa. No Ano, em Filhos do Carnaval. É uma interlocutora que sempre vai ser importante para mim.

Já que é uma história longa e bem documentada, como você estruturou seu roteiro?

À medida que pesquisava, ficou claro que o relato tinha de ser formulado a partir de Cláudio. Ele foi o utópico, o sonhador que vislumbrou a criação do parque. Orlando foi o prático, o negociador que assumiu o sonho do irmão e o tornou possível. No filme, eles chegam a brigar, porque Cláudio acusa o irmão de estar cedendo às pressões dos políticos. O sonhador queria mais. O negociador foi avançando, conseguindo o que era possível, tentando o impossível. E havia o terceiro irmão, o menos conhecido, Leonardo, que introduzia, por assim dizer, o elemento trágico no relato que também é familiar.

Como O Ano, Xingu narra uma história de família. Ambos mostram personagens exilados, internamente. Os irmãos Villas Bôas parecem não pertencer a mundo nenhum. Concorda?

Totalmente, e acho oportuno que você observe isso porque, no limite, era o que me interessava. Os Villas Bôas não se sentiam em casa na cidade, assim como sua integração na terra dos índios nunca é completa. Por mais que se identifiquem, por mais que lutem, não são um deles. Gosto desse tipo de personagem, meio deslocado.

Tem a ver com você, quem sabe? Sua ascendência é judaica e você faz esses filmes encravados na cultura brasileira. Por quê?

Meu pai era um imigrante judeu alemão que queria tanto ser brasileiro que chegou a me pedir que desse nomes de índios a meus filhos. Não penso nisso, de forma consciente, mas agora que você fala - talvez eu faça esses filmes sobre futebol (O Ano), carnaval (Os Filhos do Carnaval), agora índios, para prosseguir com o desejo de meu pai.

Qual foi o impacto para você ter filmado no Xingu?

Toda a minha percepção do tema mudou depois que, como parte da pesquisa, fiquei um tempo no parque. Vi e senti os índios de outra maneira. (O marechal) Rondon criava reservas na periferia das cidades para integrar o índio. Os Villas Bôas os isolavam, mas não eram contra a integração. O parque tem internet, se os índios querem podem usar o tênis Nike. A escolha é deles, mas a sua cultura está preservada, e isso é fundamental.

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