ENTREVISTA-Esculturas de Tomie Ohtake celebram migração japonesa

A artista Tomie Ohtake está quasesempre vestida de preto, diz que prefere vermelho para suasesculturas ao ar livre e que achou Santos amarela demais quandoaqui chegou, vinda de Kyoto, há mais de 70 anos. As cores parecem guiar a vida desta nipo-brasileira de 94anos, que virou informalmente a artista das comemorações docentenário da imigração japonesa no Brasil. Tomie ficou famosa nos anos 1960 pelas pinturas e gravurasde formas abstratas e técnicas inovadoras. Hoje, reconhecidainternacionalmente, tem obras públicas espalhadas pelo país,como painéis coloridos em metrôs e esculturas em parques eteatros. Em sua casa-ateliê na zona sul de São Paulo, repleta deobras e peças de design, Tomie explica que prefere que opúblico interprete seus trabalhos, geralmente sem nome. "Tem que começar pelo o que a pessoa sente, senão perde apureza. É mais importante do que eu falar da obra", disse aartista à Reuters. Ao lado de pinturas inacabadas, Tomie exibe as maquetes deduas esculturas projetadas para Santos e Guarulhos, noaeroporto internacional de Cumbica, como parte do centenário. Ambas são vermelhas e têm formas abstratas. A de Santosterá 15 metros de altura e 20 metros de largura, cominauguração prevista para junho. "É em aço (a obra) e vai se encaminhando para cima e emdireção do mar", disse a artista. Simpática, ela pede ao fotógrafo que acompanha a reportagempara pegar as maquetes em uma mesa e para abrir envelopes paramostrar os projetos. Reclama da idade, das falhas da memória ese desculpa mais de uma vez pelo português. A escultura de Guarulhos, na forma de um círculo e com 9metros de altura, ainda depende de patrocínio. Nos 80 anos da imigração japonesa, Tomie também criou umaescultura pública em São Paulo, que pode ser vista até hoje nocanteiro central da avenida 23 de Maio. Além das obras para o centenário, Tomie também vai assinaros cenários e figurinos da ópera "Madame Butterfly", no TeatroMunicipal de São Paulo, como fez na década de 1980 para oMunicipal do Rio. A história conta o trágico romance de umajovem gueixa com um capitão da marinha norte-americana, noJapão do final do século 19. "Não gosto dessa coisa de árvore de cerejeira, ponte, águapassando. É tudo abstrato, nem cadeira tem", disse Tomie sobreos cenários, mostrando em um livro as fotos da ópera no Rio. Para a nova montagem em junho, Tomie pretende manter amesma idéia, com o cenário do primeiro ato em vermelho, e osegundo, em amarelo. Na cena do casamento dos protagonistas, osconvidados estão de preto, e a noiva de branco. CULTURAS DISTINTAS Tomie lembra então de seu próprio casamento, com oengenheiro agrônomo Ushio Ohtake, feito em estilo ocidentalpouco tempo depois de aportar em Santos, aos 22 anos. "Não teve nada de tradição oriental. E eu tive que mandarfotos para minha mãe no Japão, para mostrar que tinha casadomesmo", disse Tomie, abrindo um sorriso. O casal teve dois filhos, ambos arquitetos famosos, Ricardoe Ruy Ohtake, responsável pela moderna casa no Campo Belo ondea artista mora há quase 40 anos. Esculturas e telas de artistasjaponeses e brasileiros integram os espaços. A pintora também cita a luz forte amarela que pairava noporto de Santos quando ela chegou e disse que brincou muitodurante os 45 dias de viagem de navio. "Dava para ler livros,conversar com as pessoas também." A artista, mais nova de seis irmãos e a única mulher, veioao Brasil para visitar um irmão e passar apenas uma temporada.Acabou ficando por causa das guerras em que o Japão entrou. "Tinha curiosidade em ver como meu irmão estava no Brasil,não queria voltar, mas quando estorou a guerra, chorei", disseTomie, que foi morar no bairro paulistano da Mooca. Tomie voltou pela primeira vez ao Japão em 1951, para versua mãe doente. Há dez anos não visita o país, apesar de termantido a frequência de uma viagem a cada quatro anos. "A minha chegada e os anos iniciais foram de uma certainadaptação pela grande diferença cultural existente entreJapão e Brasil", disse Tomie, por email, antes de conceder aentrevista em sua casa. "Logo em seguida, essas diferençasforam esquecidas, significando a adaptação." Considerada a dama da artes plásticas, Tomie começou acarreira artística aos 40 anos, "quando a cultura brasileira jáfazia parte da minha formação", explicou. A partir daí vieram participações na Bienal de São Paulo eexposições na Itália, Japão, Estados Unidos. Suas obras estãoentre as mais valiosas de artistas brasileiros vivos. "Minha absorção dos elementos da cultura brasileira foi umprocesso lento e que não terminou até hoje", disse Tomie.

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