Entrevista com Marcello Antony, o vilão de Belíssima

O vilão do ano defende a adoção, condena a alienação e diz que aprendeu com o pior episódio de sua vida: as drogas. "Os piores ladrões são pessoas que estão de terno e gravata", declarou o ator, na entrevista que concedeu ao Jornal da Tarde.JT - É impressão ou algo de diferente acontece na televisão com essa novela Belíssima?Marcello Antony - Se a gente ficasse sem ver novela por um bom tempo, ao voltar a vê-la sentia que não tinha perdido muita coisa, quase nada havia mudado. Já com Belíssima a perda de um capítulo passou a ser a perda de um grande mote, porque essa novela é um quebra-cabeças. Ela tem que prender a atenção do telespectador e isso acaba gerando muitas perguntas com relação à trama. Todo mundo quer saber com quem eu falo ao celular, se é com a Bia, se não é com a Bia, se é com a filha.E com quem você fala ao celular?Não sei, só sei que é com uma pessoa que me manipula.Como pode um ator criar a essência de um personagem sem saber muito sobre o que vai acontecer, se ele é bom ou ruim?Silvio de Abreu (autor) criou uma ambigüidade muito forte, que é o que sustenta a veracidade da trama. Ele estava muito preocupado com isso quando me convidou. Queria que o público comprasse o amor da Júlia pelo André e do André pela Júlia. Eu sabia que ele iria dar um golpe na Júlia e assumir a presidência da empresa. Como desenho de personagem, tinha isso seguro. Silvio falou o seguinte: "Olha, no começo você vai ser um vilão com atitude de mocinho. A partir do momento em que conquistar o que conquistou, será um mocinho com atitude de vilão." Nunca me senti perdido.Há todo um mistério policialesco que exige bastante do telespectador. Mas esse telespectador que chega cansado e liga a TV às 21 horas quer pensar?A pessoa que se senta ali para ver a novela não deixa de se abstrair do seu dia-a-dia e, ao mesmo tempo, pensa. Essa novela é até uma forma de dizer ao público: "Olha, vocês pensam. Vocês têm cabeça pensante." É bom sim se abstrair do dia-a-dia, mas a gente não pode ficar alienado. Não podemos confundir isso (diversão) com alienação. Talvez uma das contribuições da teledramaturgia ao longo dos anos foi fazer com que o povo brasileiro se tornasse alienado sim. Quando aparece um autor que faz com que o público pense é positivo, faz com que o telespectador se sinta inteligente. ´Olha, você também é capaz de pensar, também é capaz de se articular, também é capaz de agir´. É disso que as pessoas mais precisam no momento, de ação, de pensar. E não de alienação. É claro que seria ótimo chegar em casa e, depois de ver 40 policiais mortos em um Jornal Nacional pesado, se sentar no sofá e não pensar. Só acho que o momento não é para isso. As pessoas têm que estar engajadas e acho que o Silvio ajuda, faz com que o telespectador pense.Há uma boa parte do público que ainda resiste a personagens como o que você faz, um homem sem caráter que trai a mãe com a filha e faz de tudo para se dar bem. Não aceitam que certas cenas entrem em suas casas e mudam de canal. Esse telespectador também tem razão?É muita hipocrisia achar que essas coisas não acontecem. Quando o André aparece como uma pessoa bonita e distinta, o que se mostra é exatamente a realidade brasileira. O Fernando Collor de Mello foi eleito presidente porque derrotou o ´sapo barbudo´, o Lula. Collor tinha cabelo engomado, um bom terno, falava bem. Foi eleito por causa disso. Os piores ladrões são pessoas que estão de terno e gravata bebendo seu uísque em casa, roubando e metendo a mão no dinheiro do povo. Querer fugir disso é hipocrisia.Você já perdeu papéis por ser considerado bonito?No início da carreira eu fazia todos os testes que me chamavam. Uma vez calhou de ir fazer comercial para um supermercado muito popular na época e o cliente não aprovou porque eu não tinha o perfil adequado para aparecer naquele comercial.De qualquer forma, a vida parece ser mais difícil para atores feios?Não creio. Existem sim os estereótipos na TV, como o vilão, o bonzinho, o feio, o pobre, o rico, mas a estética não é preponderante. Veja atores como Matheus Nachtergaele ou... sei lá... outros que não estão nos padrões de beleza....Ele vai ficar bravo com você por chamá-lo de feio.E há mercado para todos. É claro que na televisão imagem é tudo, é verdade. Mas não necessariamente uma imagem bonita vai se sobressair. Há espaço para outros tipos físicos.A beleza tem qual peso em sua carreira?Ela foi indiferente, não ajudou nem atrapalhou. No início da carreira eu tinha aquela preocupação clichê de não ser reconhecido como apenas um rosto bonito, era um medo grande. Hoje não tenho a mínima preocupação com isso.É sério que você foi hippie?A minha natureza é hippie. Isso é inerente a mim, mas é claro que aos 19 anos era extremamente radical, comia arroz integral, tomava chá, curtia a natureza, escutava mantra, fazia posições de ioga. Aquela fase de adolescente que todos passam e que se vai maturando, selecionando.Era roqueiro?Não, não. Eu tinha muitos amigos músicos, mas eram mais do lado do jazz. Do jazz contemporâneo.Um hippie de classe esse.(Risos). Não era daqueles hippies de curtir rock pauleira. Isso aí, na verdade, nunca gostei.E aí veio sua tentativa de ser astrólogo?Cheguei a estudar Astrologia por conta própria, fui procurar até uma faculdade que tinha no Rio de Janeiro mas, no meio do caminho, fui fazer um curso de artes em Laranjeiras, aqui no Rio, e acabei entrando porque era muito mais em conta do que fazer a faculdade de Astrologia.Ser vilão parece ser muito mais vantajoso ao artista, não?O mocinho é politicamente correto, é um chato. Ele nunca erra. E o ser humano erra. Fazer uma novela onde seu personagem fica só ditando regras é uma chatice. No meu caso, considero meu personagem mais humano do que vilão, foi um presente pra mim porque não tem uma cena que faço, das 17 que gravo por dia, que seja gratuita. E geralmente novela tem muita cena gratuita. A novela é comprida, tem que encher lingüiça mesmo, entendeu? E meu personagem não tem uma cena gratuita, isso me deixa atento o tempo todo.É uma novela de muitos diálogos.É verdade, é muito verborrágica, se fala muito. Engraçado que geralmente em novela você fala muito a mesma coisa sempre. Isso é inevitável, mas essa novela consegue sair dessa mesmice, há sempre uma novidade.A trama se desenvolve muito mais em diálogos do que em cenas.É, é uma novela que não abusa de cenas que mostrem a natureza, a vaca pastando, essas coisas.Por outro lado, você aparece muito dentro de um escritório. Não sente falta de ir para a rua, de participar de perseguições, de mais ação?Não sinto. Só o que digo é que vou ficar um bom tempo sem usar terno escuro, porque só uso terno preto na novela. Quando terminar acho que só vou conseguir usar roupas claras.Há muitos medos que cercam o assunto adoção. Você, pai de dois filhos adotivos, diria que adoção é um ato de coragem?É muito mais simples do que se pode imaginar. Há muito tabu com relação a isso e preconceitos tolos. O amor vence qualquer barreira. Se a pessoa tiver uma vontade de adotar uma criança lá dentro do coração, profundamente, acaba-se todo tipo de preconceito. Quando as pessoas mergulham mais fundo, vêem que isso tudo é bobeira, tolice. Enquanto estão no raso dizendo ´ah, um dia eu vou adotar, mas é difícil´, é porque ela não quer. Tem medo do que vem pela frente. Amor supera esses medos.Um dos medos dos pais é de que seu filho adotivo cresça e saia em busca de seus pais biológicos.Isso depende da forma como eles criarem essa criança. Um outro erro que as pessoas cometem é o de esconder a verdade. Isso é um absurdo. A verdade tem que existir sempre. É a verdade que vai fazer seu filho ficar preso a você. Isso pra mim é um fato.Em abril de 2004 você foi preso em Porto Alegre, flagrado comprando 100 gramas de maconha. Como olha para isso hoje?A gente está nessa vida para aprender. Tudo o que acontece na vida da gente é por algum motivo. Só temos que pegar isso, levantar a poeira e transformar o fato em algo positivo. Foi o que eu fiz.

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