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Entrevista com Gerard Butler - Para agradar Kim Jong-Un

Protagonista de Ataque à Casa Branca, que estreou no início do mês, fala sobre o filme em que terroristas norte-coreanos invadem os EUA

Fernanda Brambilla / Especial para o Estado / Cidade do México, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2013 | 02h12

Um ataque de norte-coreanos aos Estados Unidos deixou a Casa Branca em pedaços, Washington sob destroços, um presidente refém e um ataque nuclear iminente. A trama latente de Invasão à Casa Branca, que chegou aos cinemas no início do mês, arrebatou seu protagonista, o ator Gerard Butler, que divulgava o filme em Nova York na semana passada.

Na TV do quarto do hotel, a CNN alardeava: Coreia do Norte aponta mísseis para os EUA; presidente Obama pede colaboração da Coreia do Sul. A sensação era de déjà-vu. "Eu me vi repetindo cenas do filme. Fiquei chocado", conta o ator de 43 anos em entrevista ao Estado na Cidade do México.

Na ficção do diretor Antoine Fuqua (de Dia de Treinamento), o que não passou de especulação na vida real se concretiza a partir de um avião comandado por norte-coreanos que abre fogo na capital americana. Não é o Exército do ditador Kim Jong-un, mas um grupo terrorista que protagoniza o atentado. E cabe ao agente do serviço secreto Mike Banning (Butler) salvar o presidente, o país, o mundo de uma grande explosão nuclear.

Um novo herói para quem ainda é lembrado pelo Rei Leônidas e seu "Isso é Esparta!", de 300, filme de 2006. Um patriotismo no mínimo curioso para um ator escocês radicado em Los Angeles, que não hesita em citar a própria mãe quando questionado sobre seus heróis pessoais. Para Gerard Butler, uma chance de atirar armas pesadas e dar muita porrada - "o que posso dizer? Sou muito bom nisso, por isso me chamam" - e ainda fazer graça com a tensão política fora da telona. "Do pouco que sei do ditador Kim Jong-un, ele não perde uma chance de atrair a atenção da mídia do mundo inteiro e vai se envaidecer em ver esses norte-coreanos tão malvados, brinca Butler. Ele vai amar esse filme".

Antoine Fuqua justificou a escolha de seus vilões da Coreia do Norte com um esgotamento dos inimigos anteriores dos americanos - iraquianos, afegãos e toda a temática do Oriente Médio.

Como produtor e protagonista, acredita que o timing do lançamento de Invasão à Casa Branca poderia ser melhor?

Gerard Butler - Jamais imaginamos que isso pudesse acontecer, o sincronismo com a realidade é mesmo inacreditável. Acho que esse tema atinge as pessoas de maneira direta, forte. Eu estava em Nova York havia alguns dias e levei um susto ao ver na TV a manchete que dizia que os EUA pediam apoio da Coreia do Sul contra as ameaças da Coreia do Norte. O mesmo se passa o filme, a mesma cena. Por mais que soubéssemos que a região é difícil e que a qualquer momento isso poderia acontecer (a ameaça de um ataque), é um choque.

Com essa tensão de possível ataque da Coreia do Norte nos últimos dias, você ficou abalado com o noticiário? Chegou a pensar que estávamos próximos a uma guerra?

Gerard Butler - Penso nisso o tempo todo e acho que não sou só eu, estamos todos assim, não? Ou alguém fica indiferente a isso tudo? Hoje há um grande medo nas cidades grandes e vivemos com medo porque sabemos que somos muito vulneráveis a coisas como o terrorismo ou a um chefe de governo que decida fazer alguma coisa estúpida a ponto de mudar o curso da História. E conforme a tecnologia avança, crescem os perigos. Nosso mundo não é lugar seguro. Quando li o roteiro, pensei: "Meu Deus, é o nosso pior pesadelo! Um ataque organizado, em grande escala, que nos deixa sem ação, à mercê." Mas quando se trata de ficção, a mensagem que queremos passar é a de que não importa o tamanho da ameaça, nós a superaremos.

O filme tem um apelo patriótico muito forte, o que deve ser curioso para você, já que não é americano...

Gerard Butler - O filme vai além dos EUA. Isso poderia acontecer com qualquer país e, se pensarmos nos ataque terroristas recentes, tivemos muitos casos na Europa, por exemplo. Estamos falando de gente que pode nos ferir gravemente. É nossa liberdade que está em xeque. O filme aponta a fragilidade da nossa liberdade.

Ou seja, mais um herói na sua lista, que tem no topo dela o Rei Leônidas, de 300. Quem são os seus heróis?

Gerard Butler - Interpretei alguns heróis, e gosto de examinar as sutilezas que compõem cada um deles. Mike Banning é o tipo de herói que não acredita que vai vencer, mas que se arrisca de qualquer jeito, é um pouco como Rocky (o Lutador). Ele não tem fé em si mesmo, está apavorado, mas vai lá e se sacrifica. É diferente do herói tão focado no que tem de fazer, como o Leônidas, por exemplo, que nada pode pará-lo. Ou seja, de um jeito ou de outro, eles encaram o medo. Tenho muitos heróis na minha vida, a começar pela minha mãe, que me criou e é a maior heroína de todas. Depois dela, acho que vem Nelson Mandela.

A ideia de que o presidente dos EUA seja feito refém por norte-coreanos é forte. Mas vivemos uma época de muito descrédito nos governos e seus líderes...

Gerard Butler - Acredito que é nessas horas mais difíceis que as pessoas deixam de lado suas diferenças por uma causa maior. Em qualquer lugar do mundo você cresce escutando coisas ruins sobre suas instituições, mas você imagina o que as pessoas pensariam se vissem Barack Obama com uma arma apontada para a sua cabeça? Nessa hora, o partidarismo acaba. Não creio que alguém diga: "Viva, o presidente morreu". Espero que não. Quando Kennedy morreu, por exemplo, foi um dia terrível. Muitos não concordavam com ele, não o considerava bom, mas quando o assassinaram, isso deixou de ser importante. Eu estava na África do Sul quando fiquei sabendo que Margaret Thatcher morreu. Aquela mulher acabou com o meu país. Na Escócia, todo mundo a odiava. Eu a odiava. Mas ao saber da morte dela, me senti comovido. Não me senti aliviado.

Hipoteticamente falando, o que acha que o ditador norte-coreano Kim Jong-un acharia do filme?

Gerard Butler - Ah (risos), é um filme de ficção! E não estamos falando nada sobre os norte-coreanos que o mundo já não saiba, eles não se surpreenderiam... Decidimos fazer o filme sobre terroristas norte-coreanos e não o governo, o ditador ou o Exército do país. São inimigos ficcionais, com motivações complexas. Ouvi dizer que Kim Jong-un gosta de cinema. Do pouco que sabemos, ele não perde uma chance de atrair atenção da mídia do mundo inteiro e acho que gostaria de qualquer coisa que faça com que norte-coreanos pareçam durões e malvados. Ele vai amar esse filme.

Existe mística sobre o país, até pela pouca informação que temos de lá?

Gerard Butler -  Claro que sim. Se fizéssemos um filme sobre terroristas jamaicanos, por exemplo, quem se importaria? Ou espanhóis? As tensões políticas atuais precisam ser levadas em conta na hora de fazer um filme desses. Então, escolhemos norte-coreanos. E no filme eles estão fazendo o que sempre fazem: sendo agressivos. Não estamos dizendo que eles são necessariamente maus. Estamos falando de terroristas. Na 2ª Guerra, os inimigos eram alemães; nos anos 80, russos; depois, Irã, Afeganistão, Iraque... hoje são os norte-coreanos. E o terrorismo já faz parte do nosso imaginário coletivo. Todos nós temos lembranças dos ataques de 11/9. É algo poderoso. A diferença é que se no 11/9 estavam todos mortos em aviões, no filme nós temos reféns vivos e também uma chance de justiça. E é aí que eu entro.

Para um amante dos filmes de ação, você se imagina daqui a 20 anos como Bruce Willis e Sylvester Stallone, que seguem fazendo esse tipo de filme aos 60 anos?

Não me imagino sequer aos 60 anos. Mas espero que, se chegar a essa idade, continue com diversidade: comédias, dramas, musicais. Não sou avesso a fazer filme de ação quando estiver mais velho. E o Bruce Willis, poxa, ele continua demais, não acha?

Você já fez uma ponta em 007 - O Amanhã Nunca Morre, de 1997. Tem vontade de ser o 007?

Gerard Butler - Ah não sei... estamos falando da minha franquia preferida, mas já há oito deles. É o tipo de papel em que você é crucificado antes mesmo de começar o trabalho, muito frustrante para o ator. Já consigo imaginar as pessoas criticando: "Ele não é tão bom quanto Daniel Craig" ou "Ele não é tão bonito quanto Sean Connery", que é o mais famoso deles e é escocês. Como poderia superar isso?

Você é fã assumido do Brasil e já esteve no País algumas vezes. Qual sua lembrança mais marcante de lá?

Gerard Butler - Adoro o Brasil e quando estou lá penso que gostaria de não ser ator para poder simplesmente não ir embora. Tenho esse sonho de comprar uma casinha no meio da floresta ou em uma praia distante como Fernando de Noronha. Minha memória favorita do Brasil foi quando o Rodrigo Santoro me levou para um desfile de carnaval no Rio. Fomos aos bastidores de uma escola de samba e pude ver todos se preparando para entrar na avenida. Fazer parte daquilo foi inesquecível. Estavam todos compenetrados, focados, tensos, mas ao mesmo tempo felizes e sorridentes, celebrando a vida. Se tivesse de escolher os dez melhores momentos da minha vida antes de morrer, esse com certeza seria um deles. Mas também já me dei mal no seu país. Sou fã de futebol e uma vez fui ao estádio do Fluminense - estava vestindo uma outra camisa, uma do Flamengo. Ninguém me avisou que aquela não era uma boa ideia... Não me deixaram entrar. Eu me lembro que pensava: não é por nada, mas sou famoso, sabe? Não adiantou, fui obrigado a tirar a camisa. Foi constrangedor.

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