ENTREVISTA-Carlinhos Brown quer criar a Timbalada 'eletrônica'

O inquieto músico baiano CarlinhosBrown, criador da Timbalada e um dos compositores mais tocadosdo Carnaval da Bahia, quer levar o som eletrônico para as ruasde Salvador pelas mãos dos próprios percussionistastimbaleiros. A música eletrônica já está incorporada à folia baiana,onde há pelo menos três anos DJs internacionais têm levado asbatidas secas aos circuitos de Salvador. Mas o que Brownpretende é algo distinto. "Eu vou trabalhar nos próximos anos para fazer a Timbaladana rua eletrônica, mas não é com DJ, é com tambor na mão",disse Brown em entrevista à Reuters, após encerrar o Carnavalde Salvador com a passagem de seu Arrastão, que arrebanha osúltimos foliões no circuito da orla marítima na manhã deQuarta-feira de Cinzas. "Chegou a hora do percussionista eletrônico", disse omúsico, que avalia que a Bahia está aberta para essa novidade."Porque já chegou ao alcance da simplicidade e porque nóspodemos alcançar o som que queremos", justificou. Dizendo-se "prontíssimo" para a empreitada musical, Brownespera que as grandes produtoras de instrumentos musicais --como a Roland e a Yamaha -- comecem a investir na criação deinstrumentos de batucada eletrônicos. "Nós temos tambores extremamente pesados que poderiam sereletrônicos", disse, acrescentando que esses instrumentosabririam possibilidades sonoras impossíveis com os similaresacústicos. "Isso vai dar uma diversidade maravilhosa ao Carnaval, masclaro sem matar jamais a forma acústica", afirmou Brown, 45anos. A Timbalada, com mais de dez álbuns gravados, é um dosprojetos mais conhecidos de Brown. O grupo, formado em 1991 ehoje com 19 percussionistas e cantores, começou como um projetosocial no bairro carente do Candeal, onde Brown nasceu. "EXPERIMENTALISTA" Brown também gostaria de gravar algum disco este ano."Música é o que não falta. Eu agora estou pintando quadro comgravador do lado. Sai um quadro e 20 músicas", afirmou. Conhecido pela criatividade, refletida em suas músicas,atitudes e vestimentas -- durante todo o Carnaval não abandonouos óculos escuros e o cocar de cacique -- Brown disse que cabea ele e aos novos compositores apenas tentar reinventar o quejá existe. "O Brasil já está feito no conceito cultural... as cançõesestão no inconsciente coletivo. Nós somos maisexperimentalistas." Além de levar a sua música e seus tambores para as avenidasde Salvador durante o Carnaval, Brown tem sido uma pessoaimportante na condução da folia baiana, ora criticando oapartheid entre foliões de blocos e a chamada pipoca, oragarantindo espaço para os artistas com menos apelo comercial. Para o Carnaval de 2009 ele já elegeu a sua bandeira deluta: quer restringir o tempo de parada dos trios em frente aoscamarotes para garantir que todos tenham oportunidade deexposição à mídia. "No Carnaval do ano que vem, o que mais esperamos (osartistas) é uma disciplina em relação à parada no camarote",disse, sugerindo que cada artista possa cantar apenas uma ou nomáximo duas músicas em cada camarote. Desta forma, o tempo deexposição das atrações nas transmissões ao vivo das redes detelevisão seria mais equilibrado. "Isso é uma mudança importantíssima." Durante este Carnaval, alguns trios chegaram a ficar quaseuma hora parados em frente a camarotes, enquanto os outrosesperavam para seguir caminho. "É chato, cansa o cordeiro que éum funcionário nosso, cansa as pessoas, cansa todo mundo",disse Brown, ressaltando que não era uma crítica, mas uma"evolução". O prefeito de Salvador, João Henrique (PMDB), tambémanunciou durante este Carnaval que serão feitos estudos sobre aviabilidade de ampliação do circuito Barra/Ondina, na orlamarítima, para que os trios chegassem até o bairro do RioVermelho. "Não concordo", disse Brown, que este ano foi o curador datradicional festa de 2 de Fevereiro no Rio Vermelho, emhomenagem a Iemanjá, rainha das águas no candomblé. Para ele, o bairro tem que ser preservado como espaço dedivulgação de músicos e bandas que não têm oportunidade demontar um trio e para a festa religiosa. "Deixa o trio elétrico onde está", pediu.

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