entrevista* ARTE QUE TRANSFORMA

Fabio Cavalli, Diretor da peça dentro de César Deve Morrer, Fabio Cavalli fala do trabalho na prisão e da parceria com os Taviani

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h09

Fabio Cavalli desfruta de sua nova popularidade. Como o diretor da peça dentro de César Deve Morrer, o novo filme dos Irmãos Taviani - que venceu o Urso de Ouro do ano passado e estreou na sexta-feira -, ele tem sido muito solicitado para dar entrevistas. "Antes de falar com você no Brasil, falei com um jornalista dos EUA e até uma equipe da TV japonesa veio gravar conosco." Mas, como na velha história do santo de casa que não faz milagre, só a mídia italiana é reticente. "Em geral, não valorizam e até ignoram o que estamos fazendo."

O que 'estamos' fazendo é um projeto de cidadania, ao mesmo tempo artístico e social. Cavalli iniciou um trabalho pioneiro com os detentos da prisão de segurança máxima de Rebibia, em Roma. Formou com cerca de 100 deles três grupos de teatro que encenam Shakespeare, Chekhov e Aristófanes.

O projeto começou em 2002 e, desde 2006, quando começou a contabilizar o número de espectadores, Cavalli já atraiu mais de 30 mil pessoas a Rebibia para ver teatro. A Itália, garante ele, é um dos raros senão o único país do mundo em que você tem de ir à cadeia para ver o melhor teatro. Os irmãos Taviani foram ver um de seus espetáculos e ficaram tão impressionados que quiseram fazer um filme. O teatro mudou e continua mudando a vida desses homens - e de suas famílias. Antes, eram criminosos, agora são artistas.

Como começou a parceria com Paolo e Vittorio Taviani?

Eles foram ver um de nossos espetáculos em Rebibia, Paolo e Francesca no Inferno de Dante. Perceberam o alcance estético e social do que estávamos fazendo. Imediatamente, propuseram a realização de um filme. Surgiu a possibilidade de fazermos um Pirandello, Seis Personagens em Busca de Um Autor, mas eles queriam algo mais político e universal, que abordasse a questão do poder. Propuseram Júlio César, de Shakespeare. Trabalhei um ano com meus atores detentos no texto. Os Taviani fizeram nos últimos dois meses com sua câmera.

Quem são os atores?

Para estar numa prisão de segurança máxima, esses homens possuem uma trajetória de muita violência. São assassinos da Máfia, da Camorra, ou ligados ao narcotráfico. O teatro, com aquilo que possui de beleza, de poesia, entrou na vida deles com todo o seu poder de transformação. Não romantizo. As estatísticas dizem, que, de cada 100 detentos, 65 voltam à cadeia, depois de soltos. No nosso caso, o número é insignificante, residual - apenas 2%. Os Taviani me deram carta branca para montar o espetáculo. Escolhi o elenco, mas eles gravaram as entrevistas. A fala final, de qualquer maneira, é uma ideia deles. Quando a ouviram, dita pelo preso, eles imediatamente perceberam o significado. Ficou um fecho muito forte.

É um trabalho artístico, mas também ideológico. Imagino que foi isso que criou a afinidade com os Taviani, ou não?

Com certeza. Compartilhamos uma visão da sociedade e do homem, uma crença na transformação pela arte. O projeto não mudou só a vida deles - salvou a minha. Há dez anos, eu estava saturado do teatro e do cinema burgueses, não queria saber de mais nada. Foi o trabalho em Rebibia que me devolveu o ânimo e a disposição de trabalhar.

Qual a contribuição de Laura Andreini nessa história toda?

Laura Andreini Salerno é viúva do grande ator e diretor Enrico Maria Salerno, sabe quem é? (Ele dirigiu Florinda Bolkan em 'Anônimo Veneziano', de 1972.) Laura dirige o Centro Studio Enrico Maria Salerno e é a responsável por tudo o que conseguimos fazer. Ela também é autora de um texto em que já começamos a trabalhar - La Festa Scritta. O trabalho em Rebibia é produto da união de muita gente. Não sou eu, não é Laura, não é cada detento, individualmente. É um coletivo que acredita na força viva do teatro.

O que mais me impressiona neste filme que celebra o casamento do teatro com o cinema é a sua concisão. Amo muitos filmes dos Taviani, mas eles nunca foram tão sucintos - menos de 80 minutos. O que você pensa disso?

A montagem do filme foi um trabalho de Paolo e Vittorio. Já os ouvi brincar dizendo que precisaram ficar velhos para entender o valor da economia narrativa. Mas eu tenho para mim que isso é resultado de todo o processo. Esses homens possuem consciência da gravidade do que dizem e fazem em cena. São diretos, não perdem tempo com firulas. Nossos espetáculos são austeros. O filme é simples, mas essa simplicidade é produto de muita elaboração, como Paolo e Vittorio entenderam e sintetizaram.

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