Werther Santana/Estadão
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Entrementes, a morte

Esse viver que nem sempre tem sintonia com alegria e hoje, lamentavelmente, encaixa-se como uma luva no sofrer

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 03h00

Num tempo de pandemia negada pela danação do primeiro mandatário, a convivência com a morte transformou-se em rotina. A virose desmoraliza a intencionalidade ligada ao conviver. Esse viver que nem sempre tem sintonia com alegria e hoje, lamentavelmente, encaixa-se como uma luva no sofrer. 

Devidamente mascarado, passei pelo bar do Soares e encontrei meu amigo Mario Batalha desolado com a morte do Paulo Gustavo. A máscara que abafava sua voz, mas não o seu sentimento, o fazia lembrar que “viver é sofrer”. Essa harmonia desarranjada e escondida em outros lugares, mas que é muito nossa. 

“Com tanta gente boa pra ir” - falou Mario Batalha -, “por que a morte pandêmica pega justamente o nosso conterrâneo - esse jovem cheio de graça que, nos palcos, como uma senhora-mãe de si mesmo, fazia rir da rigidez entre masculino e feminino e entre gerações? Esse mestre da esperança que demonstrava o poder do riso contra ódios e preconceitos?” 

Aderi e filosofei: a morte chega nos entrementes e todavia... Enquanto dávamos aula, na véspera de um aniversário, um pouco antes do baile, enquanto íamos à praia, ela surge enterrando e suspendendo todos os projetos. 

“Seu humor era niteroiense”, observava meu triste companheiro. Quis saber o motivo e Mario discorreu sobre a índole da cidade que jamais é vista por um Rio de Janeiro aristocrático e maravilhoso, coroado por um Pão de Açúcar com bondinho e pelo abençoante Cristo Redentor. De fato, relembrei, dizem que o melhor de Niterói é a vista do Rio; todavia, nós, enraizados niteroienses, sabemos que a vista é - quem sabe? - a derradeira graça do Rio. 



Um Rio hoje perdido entre administradores presos, filicídios, chacinas, balas perdidas, transporte público em colapso e os seus pouco estudados traumas sociopolíticos. O de deixar de ser a capital do Reino, do Império, da República e uma grandiosa Cidade-Estado para virar a mera capital de um Estado como sempre foi a Niterói que buscava no Rio a sua eventual grandeza.

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“Numa aldeia, todo mundo é famoso”, dizia o famoso sociólogo Erving Goffman. Paulo Gustavo surgiu na aldeia da rua Moreira César, em Icaraí, e, muito antes de se imaginar Dona Hermínia, uma jovem Déa Lúcia, frequentava nossa casa iluminada pelo piano de minha mãe. Naquele tempo, em aldeia, éramos famosos, mas nem todo mundo virou uma “peça” que arrebatou tanta gente transformando o futuro de sua mãe, Déa Lúcia, quando o filho ficou famoso no País. 

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Como se vira famoso fora de uma aldeia? Não sei, mas suspeito que a fama - o êxito ou a saída para o mundo do sucesso - tem a ver com talento e “graça” nas artes e esportes e de “carisma” na vida pública.

A “graça” desse niteroiense ator-diretor-autor era fabricar riso. Suas impagáveis improvisações eram o entrementes do ato - o “caco” fora do texto. O gesto e a fala não previstos que animam a cena com o brilho e o talento que, após o suspense cênico, levam à explosão do riso. O improviso denuncia o real na representação e a teatralidade no real. Esses deslocamentos que surgem no vagabundo solitário e desamparado de Chaplin e na figura materna brasileira desenhada por Paulo Gustavo têm uma profunda relação com o imperativo humano de viver muitos papéis e - entrementes - ter uma só vida. Os papéis continuam, mas a vida termina... 

As portas arrombadas por Paulo Gustavo desnudam os péssimos atores dos nossos palcos políticos. A graça que desmoraliza e sublima os preconceitos é básica neste Brasil formalista, repleto de “vossas excelências”. 

Num Brasil hoje presidido por um ator que recusa, sabota e desonra o seu papel, as graças das comédias onde surge o carnavalesco são porradas de ar puro. 

Se sabemos que não é fácil mudar, pelo menos podemos rir da nossa densa ignorância de nós mesmos. Essa negação da negação, como insistia Hegel. Perdemos, reitero, quem ajudava a nos lembrar crítica e alegremente de um Brasil que recusa se ver a si mesmo como autoritário, preconceituoso e hierárquico. 

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A palavra “graça” significa - como sua irmã “carisma” - um dom espiritual doado pelos poderes superiores. No mundo diário, falamos em talento ou virtuosidade. A grande graça da “graça” é o riso que sincroniza e contagia, criando uma solidariedade especial. Rir é uma questão sociopsicológica intrigante, investigada por filósofos, psicólogos e antropólogos; e também por Charles Chaplin (o Carlitos inglês que jaz dentro de cada um de nós). Pois o riso que faz chorar, e até mesmo morrer, tira a alma do corpo. Ele descobre as muitas almas divergentes num mesmo corpo. 

A genialidade de Paulo Gustavo consistia precisamente nessa rara capacidade de reviver o riso. Esse rir inventado, diz um mito, pelo diabo. Gargalhada que os poderosos com seus títulos, roubalheiras, ignorâncias e hipocrisia, não suportam.

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Minha irmã, Ana Maria, e esse escrevinhador enviamos os nossos sentimentos a Déa Lúcia - ou melhor, a Dona Hermínia - e família. 


É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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