Entreguem o Kissinger

Num gesto de boa vontade, Obama entregou ao governo brasileiro 538 documentos reveladores sobre a nossa ditadura, que tiveram o sigilo desclassificado. Faltou entregar Henry Kissinger.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 02h00

O controverso conselheiro de Segurança Nacional e depois secretário de Estado dos governos de Richard Nixon e Gerald Ford, Nobel da Paz e tachado em alguns países como criminoso de guerra, apoiou regimes autoritários e deu o start em golpes no Chile, Uruguai e Argentina. Mais que isso. Conspirador profissional, colaborou com uma rede de espiões e assassinos que tiraram a vida de líderes democratas. 

Seu reinado, que começou em 1968, acabou quando o presidente Jimmy Carter ganhou as eleições de 1976, reformulou a política externa americana e passou a pressionar ditaduras latino-americanas que atentavam contra os direitos humanos. 

Foi quando os três políticos brasileiros mais populares do período democrático morreram de forma suspeita: Juscelino Kubitschek (22 de agosto 1976), João Goulart (6 de dezembro de 1976) e Carlos Lacerda (21 de maio de 1977). 

Em maio de 1976, o ex-presidente boliviano Juan José Torres, exilado em Buenos Aires, já tinha aparecido morto com um tiro na nuca. Em setembro, morreu Orlando Letelier, ex-ministro de Allende, num atentado a bomba em Washington. Assim como o ex-presidente da Câmara dos Deputados do Uruguai, Héctor Ruiz, e o ex-senador Zelmar Michelini. Carlos Prats, ex-comandante do Exército de Allende, fora morto com a mulher por uma bomba que explodiu no seu Fiat em 1974, em Buenos Aires.

Juscelino morreu na Via Dutra, em Resende, a poucos quilômetros da Academia Militar de Agulhas Negras, depois de lanchar no hotel-fazenda do brigadeiro Newton Villa-Forte, amigo íntimo do general Golbery do Couto e Silva, o homem mais poderoso do País. Villa-Forte fora professor de João Figueiredo e condecorado por ele. 

O motorista de JK, Geraldo Ribeiro, reclamou no hotel, minutos antes do acidente, que mexeram na suspensão do Opala placa NW 9326. O carro voltou para a estrada e mudou de rota no quilômetro 168, atravessou o canteiro e bateu de frente num Scania no sentido contrário. 

O caminhoneiro Ademar Jahn, que vinha logo atrás, viu o Opala com o motorista apoiado já morto no volante antes de atravessar o canteiro. Nunca foi procurado pelas autoridades. A versão oficial é de que o Opala, em alta velocidade, batera antes num ônibus da Viação Cometa. Seu motorista, Josias de Souza, assim como os passageiros, nunca admitiu. Testemunhas contam que o carro ultrapassou o ônibus já com a roda dianteira e a suspensão quebradas. 

Jango, cardíaco, morreu na sua fazenda na Argentina, depois de ter feito um check-up em Paris meses antes, que atestara boas condições. Sobrevive a hipótese de envenenamento, que matou de forma semelhante Pablo Neruda durante o golpe militar chileno. O responsável pela intoxicação do poeta teria sido o agente da CIA Michael Townley, que serviu à Dina, diretoria de inteligência chilena. 

Townley trabalhou com um bioquímico chamado Berríos para desenvolver o gás Sarin e compostos para eliminar inimigos sem deixar pistas. O laboratório funcionava na sua casa em Santiago. Era o centro de experimentação com armas químicas da Dina. Em 1982, morreu o ex-presidente chileno Eduardo Frei, que, segundo a justiça chilena, foi envenenado na mesma clínica em que morreu Neruda. Frei queria encurtar a transição democrática chilena.

O ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, codinome tenente Tamúz, que espionou Jango durante quatro anos, confirmou que o ex-presidente brasileiro fora vítima de uma operação financiada pela CIA, que consistia em colocar comprimidos envenenados nos frascos que ele tomava para o coração: o efeito seria um ataque cardíaco. Nada foi provado.

Três meses depois da morte de Jango, Lacerda apareceu na clínica São Vicente no Rio de Janeiro com febre e dores. O quadro não era grave. Foi sedado e internado. A família foi dispensada, assim como seu médico. Morreu durante a noite por um quadro de septicemia generalizada, apesar de nunca encontrarem a porta de entrada da infecção. Ficou a hipótese de que Lacerda teria se infectado ao cuidar de rosas.

No mesmo andar, estava a enfermeira portuguesa Maria Auxiliadora, que disse que, durante a ditadura de Salazar, viu nos hospitais de lá matarem os inimigos do regime da mesma forma. Existe a suspeita de que Lacerda foi envenenado por potássio. No ano seguinte, seus direitos políticos seriam recuperados. O antigo aliado dos militares incendiaria o debate nacional. 

Carlos Heitor Cony e Anna Lee escreveram um livro a respeito, O Beijo da Morte, que relata o encontro em setembro de 1967, no Uruguai, entre Jango e Lacerda, com procuração de Juscelino, para formarem a Frente Ampla. Adversários em tempos democráticos, os três políticos cassados pelos militares escolheram “o caminho da união para a paz, que exige a liberdade do povo de se manifestar e decidir”. Juntos, esquerda, centro e direita, conseguiriam 100% dos votos num Brasil democrático. Se vivos e anistiados, o enredo da luta democrática teria sido outro.

A vitória do MDB (partido de oposição), o movimento social pela redemocratização e anistia, pressões da Igreja e de Jimmy Carter eram uma ameaça ao projeto militar brasileira. Uma carta encontrada casualmente de 25 de agosto de 1976 confirma as suspeitas. 

O coronel Manuel Contreras, da Dina, respondia ao nosso general João Figueiredo, do SNI, que “também” compartilhava “preocupação” com a vitória dos democratas nas eleições americanas, e que tanto Kubitschek quanto Letelier causariam instabilidade no Cone Sul: “O plano proposto pelo senhor para coordenar nossa ação contra certas autoridades... conta com nosso decidido apoio”.

Um projeto estava em andamento para eliminar figuras que propunham a volta da democracia. O plano foi revelado por um jornalista do The Guardian, Richard Gott: a Operação Condor lembrava a Operação Fênix, programa de assassinatos de lideranças financiado pela CIA contra aqueles “capazes de agrupar o povo numa campanha de resistência contra militares no poder”. E responsabilizou Kissinger pelas operações. Não merecia uma convocação?

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