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Entre velas e flores

“Estava na época do mau tempo. Chegaria a qualquer momento, no fim do outono. Teríamos de fechar as janelas à noite...” 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2015 | 02h00

Estas palavras foram escritas há quase 60 anos. Seriam premonitórias se seu autor estivesse se referindo a alguma imaginária desgraça programada para sacudir Paris como a que ocorreu na última sexta-feira 13, quando seus habitantes também tiveram de fechar as janelas à noite, não para resguardar-se da chuva e do frio, mas dos jihadistas do Estado Islâmico. O mau tempo aludido dizia respeito tão somente às intempéries outonais de 1921, que foi quando Ernest Hemingway chegou à França com mulher (Elizabeth Hadley) e filho (Bumpy), para viver em Paris os melhores anos de sua vida, dos quais daria conta em seu livro de memórias A Moveable Feast (Paris É Uma Festa), publicado postumamente. 

Best-seller fulminante, sempre reeditado, consagrou-se mundialmente como a mais sedutora ode à capital francesa, à sua joie de vivre na década de 1920. Aqui traduzido em 1967 pelo próprio dono da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira, com uma bela capa (o Café de Flore desenhado por Marius Lauritzen Bern), nunca deixou de vender na França um mínimo de 8.000 exemplares por ano. No dia seguinte à chacina jihadista, o livro sumiu das livrarias parisienses. Et pour cause, diria um francês.

Entrevistada no meio da rua por um canal de televisão, uma setentona chamada Danielle conclamou a população a depositar um exemplar de Paris Est Une Fête entre as flores e velas do memorial improvisado nos locais dos atentados terroristas. Segundo ela, seria um gesto civilizatório, uma reafirmação de que os franceses também pertencem a uma civilização antiga e respeitam os seus valores, assim como os dos 5 milhões de “irmãos muçulmanos que escolheram a França para praticar livre e pacificamente sua religião e estão dispostos a lutar contra os 10.000 bárbaros que alegam matar em nome de Alá”. 

Resultado: em poucos dias, as vendas da tradução editada pela Folio aumentaram em até 500%. Como não se comover com essa reação? 

Livro é coisa sagrada para os parisienses, que o exaltam e protegem como o mais egrégio pilar da sabedoria. A França, que eu saiba, é o único país ocidental que zela com rigor pela sobrevivência de suas livrarias independentes defendendo-as dos Golias do mercado editorial e, em especial, do dumping praticado pela Amazon. 

O respeito dos franceses pelos livros começa pelo relativo desdém por capas chamativas. Se o livro é bom, não há porque dotá-las de cores e efeitos gráficos apelativos; um design jansenista (título, autor, fundo monocromático) lhe basta. As edições da Folio fogem um pouco à regra, mas primam pela austeridade. A de Paris Est Une Fête traz na capa uma foto, em preto e branco, de uma provável transversal do Blvd. Saint-Germain na época em que Hemingway e seus amigos eram “muito pobres e muito felizes”, e não corriam o menor risco de morrer num atentado terrorista.

Ruminava essas ninharias no fim da semana passada quando me vi a especular sobre como os cariocas, por exemplo, se comportariam numa situação similar à enfrentada pelos parisienses. Não me refiro à chacina em si, até porque há tempos convivemos com outras modalidades de barbárie autóctone, mas ao tipo de homenagem ou de exaltação à cidade e sua melhor gente que poderíamos lhes prestar. Por não me lembrar de nenhum sucedâneo de Paris É Uma Festa inspirado pelo Rio, fixei-me em obras literárias nativas que, a meu ver, expressam o jeito carioca de ser e seu entorno. 

Pensei primeiro em Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, o romance fundador de nossa malandragem urbana. Seria mesmo este o livro mais adequado para misturarmos às velas e flores de um hipotético memorial carioca? Não me parece que seja; o Rio nele exemplarmente retratado pertence a um passado remotíssimo. 

Embora mais próximo de nós, A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio, também fala de um Rio deleitoso que há muito deixou de existir. Foi o segundo memento que me passou pela cabeça, logo suplantado pelas andanças contemporâneas de Rubem Fonseca, mas julguei que A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro, circunscrita a um circuito apinhado de mendigos, prostitutas e trambiqueiros sem pedigree, não se encaixava no perfil almejado: um retrato “mais pra cima” da cidade, sua menos incompleta tradução. 

Ampliando o foco, sem no entanto ceder à tentação de recorrer a não ficção, o que facilitaria à beça minha escolha, por ser pródiga em bons títulos a bibliografia ensaística em torno da cidade (cujo exemplo mais recente é a história de sua vida boêmia entre os anos 1940-60 embalada por sambas-canção, a que Ruy Castro deu o título de A Noite do Meu Bem), acabei optando por um livro, um CD e um DVD. 

Se os parisienses tiveram Hemingway, a festa móvel dos cariocas ainda presente na memória popular beneficiou-se de pelo menos três carinhosos e inspirados cronistas, razão pela qual escolhi depositar entre as velas e flores de um repto civilizatório a uma barbárie qualquer uma seleta de crônicas de Rubem Braga ambientadas no Rio (tanto melhor se ilustrada por Millôr Fernandes), um CD de Tom Jobim com O Samba do Avião e o DVD do filme Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. Que os bárbaros se imolassem de inveja de tanta alegria e felicidade.

Comecei com uma época e termino com outra. Segunda-feira, a revista Época deu em seu site um furo internacional, revelando a verdadeira identidade da misteriosa escritora italiana Elena Ferrante, autora de uma tetralogia napolitana a cujo primeiro volume (Minha Amiga Genial), traduzido pela Editora Globo, dediquei uma coluna, semanas atrás. Antes que os tambores da revista parassem de rufar, veio o desmentido: Elena não é a tradutora Anita Raja. Não fora um furo, mas uma tremenda barriga. O repórter que a cometeu foi induzido ao equívoco por uma conta do Twitter atribuída à escritora. Elena permanece fiel ao anonimato. E o Twitter à apropriação indébita de identidades.

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