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Laura Greenhalgh
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Entre varrer e quebrar

Não fosse o convite de uma amiga para ir a uma apresentação musical, talvez eu não tomasse o metrô rumo ao centro de Londres, na tarde da terça-feira. A imponência da região não justificaria dar de cara com hordas de turistas apontando máquinas fotográficas para o Big Ben, na hora do rush. Chegando lá, cena familiar: vejo brasileiros às centenas, cobertos com bandeiras verde-amarelas, cruzando faróis em direção a um protesto nas calçadas entre o Parlamento e a Abadia de Westminster. Tinha bumbo, panela, apito, vuvuzela, chocalho... e a voz rouca da massa. Decido parar. Não é que "a coisa" chegou aqui? Muito papo em português. Uma jovem me fala do clima pacífico do ato, ainda sob a emoção de ter cantado o Hino Nacional num coro gigante. "Ah, a gente precisa de um País melhor, você não acha?"

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h15

Claro que acho. Vou me enfiando na multidão quando vejo um rapaz com pinta de organizador. Ele não tem tempo para mim, só diz que o ato teve algo como 7 mil adesões pelo Facebook e que, pelos cálculos da polícia inglesa, 40% é o índice de presença física desses internautas. Haveria ali 2.800 pessoas? Menos. Mas é manifestação de bom tamanho. O rapaz se preocupa porque muita gente pode ter ido para Trafalgar Square por engano, o que dividiria o público. Westminster e Trafalgar Square são pontos de manifestação. Toda semana tem. Não faz muito tempo, presenciei uma contra a discriminação aos imigrantes. Dias atrás, a garotada saiu para detonar os líderes do G8. E não é que agora vejo o Brasil detonando o Brasil? Leio os cartazes, a maior parte deles em inglês. "O Gigante Acordou" virou bordão. Ou então "Eu Não Vou À Copa do Mundo". Uma faixa parte para o detalhe: "Menos Estádios. Mais Escolas. Mais Casas. Mais Hospitais". Outra escancara: "No Brasil Falta Tudo!", seguida de longa lista dos déficits nacionais. Do outro lado da rua, ingleses tentam decifrar a cena. Não, não é carnaval.

Meu computador é a prova de que passei a ser convocada para protestos de brasileiros em Boston, Paris, Lisboa, Madri, fora atos pela Síria e, se baixar a guarda, em breve serei convidada a lançar pedras em Istambul. Isso me faz pensar nos fios invisíveis que aproximam erupções sociais em contextos distintos, recordando algo dito pela professora Saskia Sassen, da Universidade Colúmbia, ao definir "globalização lateral". De maneira simplista, seria aquele processo em que gente estranha se reconhece, sem se conhecer. Um mecanismo de identificação que prescinde do background comum, hoje substituído pela internet. Ao fixar o conceito de "global city", Saskia tenta justamente analisar essa sensação ambígua de estar conectado a outros mundos, se sentindo perdido no próprio. E tudo isso inscrito numa geografia humana cross-border, que não é bem sinônimo de "mundo sem fronteiras".

Um dado constitutivo da cidade global é o espaço da contestação. O local estratégico onde se questiona o funcionamento de sistemas - seja ele político, financeiro, de educação, saúde ou serviços urbanos. Assim, quando os canais institucionais de diálogo pifam, o espaço da contestação se ativa. Já não se pode ignorar o leque de insatisfações aberto nos protestos brasileiros. Instalou-se uma espécie de caos valorativo, que inscreve na agenda nacional algo como "professor é mais importante que Neymar". Por esse pequeno slogan passa um desfiladeiro de expectativas e demandas. O problema é saber se o espaço da contestação e o poder público vão se entender, o que nem Saskia garantiria. Porque as duas instâncias têm temporalidades diversas. Uma quer para ontem, a outra é craque em perder o timing.

Batuco essas linhas pensando em Oscar Niemeyer. O que ele teria dito dos ataques aos edifícios públicos de Brasília? Qual seria a sua reação ao saber que houve fogo, pichação e quebradeira no Palácio do Itamaraty, cuja concepção ele fez questão de repetir na bela sede do Grupo Mondadori, em Milão? Niemeyer era um devoto das causas populares. Mas zeloso daquilo que saía da sua prancheta. Jamais deixou de cobrar das administrações federais a preservação da sua obra em Brasília. Faria vista grossa agora? Apoiaria ou condenaria o estrago? A depredação vem merecendo reflexões à parte, mais do que reprimendas. Além de um transbordamento social perigoso, ela acaba por esgarçar a noção de "espaço coletivo", tão cara a movimentos que têm ido para as ruas. E por quê?

Volto às cercanias de Westminster. Fiquei na manifestação por um tempo, mas tive que ir ao meu compromisso. Por volta das dez da noite, fiz questão de passar pelo local da concentração. Acreditem, não havia papel no gramado. Tudo limpo. Os brasileiros só foram para casa depois de faxinar a área. Uma moça me explica: "Aqui não tem quebradeira. É diferente do que vocês fazem no Brasil". Ah, bom. Não poderíamos dizer o mesmo de certas periferias de Londres, OK? Em todo caso, a escultura Meteoro, feita em mármore por Bruno Giorgi, é alvo de ataques no Itamaraty. Na praça inglesa, a alva estátua de George V, mirando o Parlamento, reina intacta, sem pichação. Os dois lugares têm sido frequentados por gente que quer acordar o Gigante.

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