Entre tapas e beijos, o amor?

Filme de João Jardim conta com time de grandes atores interpretando histórias reais de violência

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2010 | 00h00

 Lilia Cabral. Interpretação contundentee sem nenhum ensaio   Codiretor dos premiados Janela da Alma, com Walter Carvalho, e Lixo Extraordinário, com Lucy Walker e Karen Harley, João Jardim não sabe definir o novo filme. Seria Amor? documentário ou ficção?

O filme, que deve ser finalizado nos próximos meses, mostra histórias de relacionamentos amorosos em que a violência se faz presente, seja uma única vez ou cotidianamente.

Um timaço de atores interpreta depoimentos verídicos e impressionantes, como o da mulher que se apaixonou de novo pelo marido depois de agredida, e assim teve o casamento salvo. Ou o do casal de lésbicas que tinha no ciúme patológico o pilar da relação, repleta de brigas.

"É um filme sobre eu, você e todos nós", diz o diretor, que reconhece o parentesco com o documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho. "Esse tema me interessa há muito tempo. O filme é sobre o amor e sobre pessoas que se oprimem. Acho que todo mundo tem dentro de si um potencial para descambar para situações desagradáveis. O foco é o processo que leva a isso."

Jardim contou com o trabalho da jornalista Renée Castelo Branco para a pesquisa dos personagens, feita no Rio e em São Paulo em ONGs de defesa da mulher, delegacias e instâncias judiciais. Foram ouvidos também psicanalistas e advogados. O material foi levantado com o intuito de desvelar as engrenagens das relações entre tapas e beijos.

A equipe optou por descartar os relatos na linha mulher-submissa-apanha-de-homem-sádico-mas-não-consegue-se-separar, tão presente no imaginário quando se pensa em violência doméstica. Conforme as entrevistas foram avançando, acabou concluindo que os enredos mais originais, e, portanto, mais impactantes, seriam impossíveis de se filmar, já que os depoentes não aceitariam se expor tanto.

Aí entraram os atores. Lilia Cabral, Julia Lemmertz, Letícia Colin, Fabiula Nascimento, Silvia Lourenço e Mariana Lima interpretam mulheres que vivem dinâmicas agressivas as mais distintas com seus parceiros (a); Claudio Jaborandy, Ângelo Antônio e Du Moscovis, homens que atormentam as companheiras. "Algumas histórias eram tão horríveis que eu ficava até enjoada de ouvir", relembra Renée.

Os nomes, as cidades e quaisquer outras referências que pudessem identificar os personagens foram trocados. Em geral, são pessoas de classe média, que narraram lucidamente, e em detalhes, o que lhes aconteceu.

Du Moscovis foi o último a gravar, ontem. Lilia filmou há três domingos. Acompanhada pelo Estado, a gravação diferiu das demais pela ausência de ensaios com o diretor. Lilia trabalhou o texto sozinha. Chegou a uma interpretação tão contundente que Jardim preferiu não mexer em nada. "O que me atraiu foi o desafio de tirar todos os meus vícios. Eu me despi dessa coisa de ser atriz. Quero que as pessoas vejam e em três minutos esqueçam que estão vendo a atriz de cinema e das novelas", revelou Lilia, ao fim. "Foi muito difícil. Comecei a trabalhar o texto e pensei: por que eu aceitei isso? Agora, que acabou, penso: Que bom que aceitei! Esse assunto é muito pertinente. Estamos na era do goleiro Bruno (acusado de matar a ex-amante)."

O que a atraiu para o projeto foi a crueza da história da mulher cujo casamento foi abalado pela morte da filha mais velha, quase terminou por conta do decorrente distanciamento do marido e só foi resgatado depois que ele a jogou contra a parede e a deixou toda roxa. "Foi a maneira que tanto eu quanto ele encontramos de nos encontrar", a mulher explica. A reviravolta veio poucos meses depois da brutalidade: "Ele saiu de casa. E a gente começou a namorar. Surgiu uma paixão tão respeitosa... Foi o melhor período da minha vida. Não é que eu goste de apanhar, mas de repente você precisa apanhar, que nem criança que precisa de um tapa para ter limite."

Já Silvia Lourenço ensaiou exaustivamente com Jardim. Seu texto era o mais extenso de todos, e, por isso, foi dividido com Fabiula Nascimento. É o caso de duas moças que se apaixonam e passam a viver uma relação pontuada pela possessividade e a obsessão de uma pela outra. Álcool e cocaína somados, o caminho para as agressões psicológicas e físicas foi curto.

"A violência não é o foco principal. A maneira como o amor entorpece essas duas pessoas, a cegueira emocional delas, é que é o mais violento", acredita Silvia, que, como Lilia e os envolvidos na produção, ficou bastante impressionada com a força dos relatos. "Tudo parece doentio de longe, mas se você chega perto, vê que é comum. Talvez tenha sido meu trabalho mais difícil, porque é muito incômodo. É um lado obscuro que todo mundo tem, inclusive você e eu.

QUEM É

JOÃO JARDIM

DIRETOR DE AMOR?

Carioca nascido em 1964, estudou jornalismo e cinema. Foi assistente dos diretores Murilo Salles e Cacá Diegues. A primeira direção foi Janela da Alma (2002), sucesso de público e crítica, seguida de Pro Dia Nascer Feliz (2007) e Lixo Extraordinário (2009), todos documentários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.