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Milton Hatoum
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Entre Santiago e Jerusalém

A visão da cordilheira nevada em Santiago é de uma beleza estonteante; para alguns, esse fabuloso monumento da natureza é quase opressivo. Mas não para mim, acostumado com a visão da floresta amazônica, também grandiosa e belíssima. É verdade que o Rio Mapocho não passa de um modesto igarapé. Mas ao sul, "o rio Valdivia é o lago mais extenso do Chile", como escreveu Nicanor Parra.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2014 | 02h06

De qualquer lugar a montanha espreita Santiago, como uma espécie de guardiã milenar. Quando a natureza assume ares ciclópicos, o ser humano adquire naturalmente um ar de timidez e discrição, que é também o modo de ser do andino, do indígena. Não é preciso provar nada, os deuses estão ali mesmo, na natureza: a águia, o céu, o sol, a cordilheira.

Na Amazônia vive grande parte da população indígena brasileira, mas não há no Norte (nem em qualquer região do Brasil) um centro cultural dos povos indígenas como o Museu Pré-colombiano do Chile. Situado perto da Plaza de Armas, esse museu é uma verdadeira lição sobre a cultura dos povos que habitavam o Chile antes da colonização.

Santiago, apesar da poluição, é uma metrópole com escala humana, onde se pode andar sem medo por calçadas largas e arborizadas, e parques integrados ao tecido urbano. Minhas andanças quase sempre começavam cedo, em manhãs geladas. Saía do Parque O'Higgins e andava para o oeste da cidade. Na terceira caminhada passei por Larraín e segui até o Parque Mahuida, aos pés da cordilheira. Depois fiz um trajeto por Peñalolén, segui até o subúrbio e visitei Nido de Águilas, onde mora um amigo chileno. No campus Oriente (Universidade do Chile), conversei com professores e alunos sobre a reforma do ensino público, uma das metas do governo de Michelle Bachelet.

Não há paisagem monótona num país cujos limites são um oceano, uma cordilheira, um deserto e a Patagônia. Pensei em visitar o "antipoeta" Nicanor Parra, em Las Cruces. Em 1954, publicou Poemas e Antipoemas, em que se encontram alguns dos melhores poemas do autor, como Solilóquio do Indivíduo. A poesia de Parra é ao mesmo tempo culta e popular, e quase sempre irônica e cômica. Mas o humor é um ruído incômodo nesse mundo absurdo e violento, que tende à uniformização e à rotina. Não fui a Las Cruces: por que incomodar um homem que vai fazer 100 anos em setembro? Na verdade, Parra me alcançou em plena Avenida Irarrázaval. Não o poeta, e sim os versos graves, nada cômicos do poema 1979:

Macul com Irarrázaval/carabineros armados até os dentes/uma mulher escava o lixo/automóveis passam em todas as direções/e os temíveis plátanos orientais/esta cidade está condenada a desaparecer/é o mundo me dizem/não te preocupes/é o ano 1979.

Santiago não desapareceu. Sobreviveu a terremotos e ao tempo obscuro, de terrorismo de Estado. Poucos meses antes do golpe de 11 de setembro de 1973, não longe da Macul com a Irarrázaval, moraram meus amigos Aurelio e Xico, dois dos muitos brasileiros exilados e expatriados que foram a Santiago em busca de liberdade.

Às vezes a memória se aviva com um gesto ou a visão de um lugar. Recordei 1979 ali mesmo, no coração de Ñuñoa, meu bairro preferido de Santiago. Depois andei até a Avenida Providencia, pensando na poesia chilena e em livros de ficção: O Lugar Sem Limites (de José Donoso), os contos e novelas de María Luisa Bombal, o belo e terrível Noturno do Chile (de Roberto Bolaño), em cujas páginas finais é narrado o terror de um agente da CIA durante um sarau literário. Pensava nessas narrativas enquanto procurava as deliciosas empanadas de "pino".

Anoitecia quando vi Jerusalém. Não era uma cidade santa nem uma miragem. É apenas uma pequena confeitaria, pobre e mal iluminada. Vi na vitrine uma única bandeja de doces árabes e uma bandeira da Palestina com uma imagem de Nossa Senhora. Uma mulher morena, silenciosa, estava atrás do balcão. Devorei dois doces folheados com calda de laranja. Lá fora, num bar da Providencia, um grupo de chilenos via na tevê uma cena macabra: cadáveres de crianças entre escombros de uma escola da ONU, em Gaza. Na tevê, uma autoridade israelense repetia à exaustão essas palavras: túneis, foguetes, escudos humanos, direito de defesa, terrorismo, terrorismo, terrorismo...

Nenhuma palavra sobre quase 2 mil mortos, 500 mil desabrigados e uma cidade devastada: o sofrimento dos mais fracos. Qual governo de país poderoso da comunidade internacional se sensibiliza com a morte de crianças sírias, palestinas, iraquianas, africanas? Nenhum. Muito menos os corruptos e déspotas governos e monarquias árabes, Egito e Arábia Saudita à frente, aliados incondicionais dos EUA.

Os palestinos estão sós, e sua tragédia não é uma guerra civil. O que alguns chamam de "direito de defesa", outros consideram "resistência ao roubo e ocupação de suas terras e casas". Após 47 anos de ocupação colonial, um povo emparedado, confinado em guetos (quem diria?) na Faixa de Gaza, em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, humilhado todos os dias e massacrado a cada dois ou três anos não tem o direito de se libertar?

Talvez esse verso de Parra, escrito em 1954, seja mesmo atual: O mundo moderno é uma grande cloaca.

*

P.S.: Vários sites publicaram o excelente artigo de Gideon Levy, premiado jornalista do Haaretz: "Tel-Aviv: assim se fabrica a guerra infinita". E vale a pena ouvir o depoimento honesto e corajoso do pacifista Miko Peled (filho do general israelense Matti Peled, herói da guerra dos Seis Dias, 1973): http://www.youtube.com/watch?v=ToYDesW47Wc

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