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Entre Rocinantes e Cravalenhos

É impossível não sentir afeto terno pela insanidade do Cavaleiro Errante da Triste Figura

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2019 | 02h00

Um amigo deu um curso sobre a loucura na literatura do início da modernidade. Releu com seus alunos clássicos como Hamlet e o Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã. No fim do semestre, terminou um dos maiores textos já escritos: D. Quixote, de Cervantes.

Em comum, todos têm personagens que encarnam a loucura. Um se faz de louco para ser a voz da razão e da vingança; outro põe a discursar a própria loucura, elogiando a si mesma diante das irracionalidades do mundo. Quixote é o louco sonhador, idealista, acompanhado de um escudeiro de “pouco sal na moleira”, o fiel, mentiroso e ambicioso, Sancho Pança.

Na realidade, são dois livros, escritos no intervalo de dez anos. O roteiro do primeiro livro, tal qual em nossas vidas, é uma sequência caótica e patética de episódios que não necessariamente se ligam. Cavaleiro autonomeado, Quixote enlouqueceu porque leu demais livros sobre cavalaria. Decidiu viver a fantasia que brotava dos livros medievais, já em decadência no fim do século 16 (época em que a história se passa).

Mal armado, envelhecido, magro, montado em um cavalo rocim, torna-se o Cavaleiro da Triste Figura. Ao lado de Sancho, que sonha em se tornar governador de uma ilha, mete-se em aventuras. Todos nós já ouvimos falar em lutar contra moinhos de vento achando que eram gigantes. Mas ele também busca elixires mágicos em purgativos, elmos encantados em bacias de barbeiro, decapita inimigos que eram, em verdade, odres cheios de vinhos. Sua donzela imaginada era trabalhadora simples, mulheres de reputação duvidosa viram damas, estalagem, palácios. Quixote via e vivia seu sonho num mundo cuja realidade deixava de ser suportável. Sempre na sela de seu Rocinante.

O livro foi um tremendo sucesso. Cervantes foi pressionado por um segundo volume e evitou ao máximo escrevê-lo. Surfando a onda da popularidade quixotesca, um certo Avellaneda (pseudônimo de alguém a quem desconhecemos até hoje), publica um segundo Quixote. Irritado, frustrado por não conseguir se livrar de sua personagem, temendo não obter outro sucesso de igual monta, Cervantes volta à carga e cria o segundo livro, em 1615. O tom mudara. Quixote não se iludia tanto e muitas vezes deixa de enxergar a realidade com suas lentes oníricas para vê-la pelo que ela realmente era. Ele não apanha tanto quanto no primeiro volume. Circula em um mundo em que já é famoso, pois muitas personagens, por meio de recurso metatextual brilhante, já tinham lido o primeiro tomo e sabiam das aventuras.

Nesse contexto, nobres armam uma sequência de artimanhas para zombar do Cavaleiro e de seu escudeiro. Queriam rir de sua loucura. Tinham recursos, tempo e engenho para tanto. Em um dos embustes criados, sugerem que ambos montem um cavalo de madeira, com uma cravelha na cabeça, que dava corda e vida ao objeto.

A montaria teria sido concebida por ninguém menos que Merlin, o maior dos feiticeiros dos romances de cavalaria. Montado por Quixote, o Cravalenho voaria pelos céus tão rapidamente que passaria de um canto a outro do mundo em pouco tempo. Sobre ele, o nefelibata derrotaria um gigante necromante e restabeleceria a ordem: mulheres barbadas voltariam a ter os rostos lisos, damas teriam sua honra restaurada, sua encantada Dulcineia estaria livre.

Quixote, mesmo diante do insólito, monta o bicho, não sem antes checar se não era um cavalo de Troia. Sancho o adverte para a possível fraude, mas nada o dissuade. Ambos acabam por subir no Cravalenho. Cereja no bolo da crueldade, a magia do ciclo arturiano só daria certo se ambos estivessem vendados. Quixote é um bem-aventurado, pois acredita sem ter que ver. Montados num cavalo de pau, cavaleiro e escudeiro são levados a crer que voam de verdade, uma vez que foles são acionados jogando ar nos dois.

Havia a crença, baseada em Ptolomeu, de que chegar muito próximo do firmamento poderia ser abrasador. Para confirmar que estavam muito alto, o teatro montado para enganá-los queima estopas e as aproxima da dupla. Por fim, crentes de que tudo funcionava, foram derrubados do cavalo. Ao retirarem as vendas, ninguém estava ali, apenas um bilhete dizendo que o gigante se impressionara com o feito e que Quixote ganhara sem mesmo ter que enfrentá-lo.

Ele acreditou, como sempre o fizera. Como analisou Foucault, nas linhas de Erasmo, havia uma razão da loucura e uma loucura da razão. Sancho, que desconfiara do barulho dos foles, agora inventava histórias sobre o que nem sequer vivera. 

Quixote é um louco adorável e genial. É impossível não sentir afeto terno pela insanidade do Cavaleiro Errante da Triste Figura. Tal como o Dr. Simão Bacamarte do Alienista de Machado de Assis, vamos vivendo uma compaixão crescente pelo desvario. Hamlet é um louco planejado e moderno.

O cavaleiro da Mancha só recupera a razão bem ao fim, quando já está se despedindo deste mundo. Interessante supor se Hamlet teria tido condições de conversar com D. Quixote. Ambos queriam consertar os estragos da falta de ética e de valores. Os dois sofreram e fizeram sofrer porque foram obstinadamente teimosos, não mudando de ideia nem quando a prudência recomendaria uma ação distinta.

O louco por vingança e o louco autêntico poderiam ter tido uma tarde tranquila entre eles? Não sei. Eram nobres e eram obstinados. Ficaram imortais. O mundo sem loucura parece, hoje, insuportavelmente monótono. Um remédio tarja preta teria resolvido? Não sei, mas meu remédio atual é a literatura. Bom domingo para todos nós. 

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