Entre quatro paredes, autor contenta-se com ironia diluída

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h05

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

No início, quem deveria dirigir a adaptação da peça O Deus da Carnificina era a própria autora do texto, mas, em algum momento, Yasmina Reza, que já dirigira a montagem parisiense com Isabelle Huppert, se sentiu intimidada diante da transposição para outra mídia. Roman Polanski foi chamado e aceitou apagar o incêndio. Talvez devesse ter avaliado melhor a proposta.

Toda a ação da peça se passa na sala em que Jodie Foster e John C. Reilly recebem a visita de Kate Winslet e Christoph Waltz. O filho dos Longstreets foi agredido pelo filho dos Cowans e perdeu dois dentes. O que é para ser um acordo de paz se frustra quando a civilidade é rompida. Os casais agridem-se verbal e até fisicamente. A sala termina abrigando o mundo e suas contradições - conceitos como politicamente correto e mobilização social, guerra dos sexos, poder e dinheiro.

O texto de Yasmina presta-se a muitas interpretações. Pautada pela interpretação 'distanciada' de Isabelle Huppert, a própria autora, em sua montagem, foi brechtiana. A versão brasileira colocou ênfase na comédia. Polanski interessa-se pelo huis clos. Em A Faca na Água (o barco), Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e O Inquilino (os apartamentos), ele já mostrou personagens em ambientes claustrofóbicos, nos quais explodem os conflitos.

É fácil para o diretor prender o olho do público com o quarteto formado por Kate Winslet e Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly. Elas são mais densas. Mas Polanski não radicaliza o confinamento e rompe o próprio huis clos ao mostrar a briga dos garotos, que, a propósito, não foi filmada por ele, mas por um assistente. Na época o cineasta estava confinado na Suíça, por causa dos problemas com a Justiça dos EUA. A prisão foi relaxada e, no mês passado, ele pôde ir a Cannes com Nastassia Kinski para a gala da versão restaurada de Tess.

Aquele, sim, era um grande Polanski. Por que ele mostra agora a briga? Para tirar o filme das quatro paredes? No texto original, o espectador é confrontado com versões, não o fato. É mais forte. No apartamento de Polanski, as janelas também descortinam um mundo que não existe na peça e remetem ao Alfred Hitchcock de Festim Diabólico. Há ironia no olhar desencantado que ele lança sobre a crise da civilização, mas o filme não vai além disso. É burocrático, de um diretor que já exigiu mais de si mesmo.

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