Entre os humilhados e os delirantes

Cibele Forjaz encena o vasto O Idiota, de Dostoievski, em três partes que alternam acertos e despreparos

, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Adaptar e teatralizar as 600 páginas do romance O Idiota, de Fiódor Dostoievski, é operação de risco. Não é pouca coisa dar imagens e vozes à jornada existencial do Príncipe Michkin visto como um perturbado risível ao não perceber os jogos de poder, dinheiro, sexo e conveniências numa São Petersburgo czarista, violenta e corrupta.

O confronto entre as forças da compaixão e da beleza, de um lado, e a de mentes sombrias, do outro, domina cada linha do enredo. O leitor devotado ao escritor russo (1821-1881) poderá estranhar a falta das nuances do original, mas quem estiver disponível para alternativas terá recompensas.

O dado foi lançado pela diretora Cibele Forjaz à frente de intérpretes vindos de vários grupos paulistanos. Realizou um trabalho designado às vezes como performance ou a busca da representação para além dos limites convencionais, sobretudo a do palco italiano. Outra relação com o público, agora não mais visto como a habitual plateia apenas observadora e silenciosa. Uma arte que incorpora a realidade externa ao trazer para dentro (ou para fora) do palco a aspereza das ruas, a crise das pessoas, a entropia das cidades convulsas. Quem se interessar por tais ideias lerá cuidadosas análises em Teatralidades Contemporâneas, da ensaísta Sílvia Fernandes (Editora Perspectiva, 243 páginas).

A encenadora apegou-se ao caráter folhetinesco do romance, que divide o enredo em ondas de tensão para segurar o leitor até o próximo acontecimento inesperado. Recurso que, ao longo do tempo, rendeu obras-primas ao lado de bastante literatice, e que permanece nas telenovelas atuais. A diferença límpida é o fato de Dostoievski ser genial. Sua obra extensa é tão abrangente que nela ecoa quase tudo, da história social às antevisões psicanalíticas. De tamanho talento é difícil falar de outra maneira. Seus personagens são "possuídos", entendendo-se por isso atitudes causadoras de crime, loucura e auto-aniquilamento (junto com a ânsia de redenção). Alguns títulos dispensam explicações (Humilhados e Ofendidos, Recordação da Casa dos Mortos, Crime e Castigo). A Editora 34 lançou traduções diretamente do russo por Paulo Bezerra, dentre eles Os Irmãos Karamazov e O Idiota (adaptado aqui por Aury Porto).

Ângulos. A montagem - a ser vista parcialmente ou inteira em três dias sucessivos - quis ser uma polifonia ao expor ângulos diferentes dos personagens, ora com intensidade próxima ao exagero, ora em deslocamentos ao longo de um galpão com vestígios da fábrica que foi no passado, arranjos cenográficos de impacto (uma linha de trem desdobrável em espelho d"água), refinamento poético nas luzes e na música, e, sempre, atuação veloz e sôfrega. Há momentos realmente bonitos e surpreendentes, outros refletindo a precariedade pontual da interpretação.

Preço. A primeira parte, ágil e colorida, conduz o público por três espaços. Na segunda, com trechos dialogados semi-estáticos, o rendimento é afetado, mas na terceira a invenção torna a brilhar. Cibele Forjaz sustenta elevado padrão estético, embora, ocasionalmente, opções de direção cobrem seu preço. Há um dado estranho na abordagem da batalha de sexos, absolutamente clara no romance. A atitude das atrizes Luah Guimarãez, Lúcia Romano e Sylvia Prado tem um ardente clima feminino, enquanto nas interpretações masculinas (à exceção do personagem Ragôjan, de Sérgio Riviero, ainda que com quedas de articulação) predomina certo tom amaneirado nas falas, gestos e olhares. Se a intenção é de sátira e/ou deboche, ela resulta deslocada. Em outra situação, Aury Porto, ator expressivo e simpático, oscila entre o jocoso e uma modéstia de cordel quando, na realidade, deve encarnar O Príncipe. Com um dossiê explicativo de qualidade, a peça alça voo sempre que capta a chama de Dostoievski. Felizmente é o que prevalece sobre tropeços possíveis de evitar. Ao final, O Idiota reflete a audácia dos que lhe deram vida sob os refletores.

Sesc Pompeia. R. Clélia, 93. Parte 1 (180 min): 3ª e 6ª, 20h. Parte 2 (120 min): 4ª, 20h; sáb., 19h. Parte 3 (120 min): 5ª, 20h; dom., 19h. R$ 16 (cada parte). Até 9/5.

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