Entre os gregos, revisitando Homero

A proeza empreendida pela norte-americana Madeline Miller em A Canção de Aquiles não deve ser subestimada: revisitar as pedras angulares da literatura ocidental, as epopeias Ilíada e Odisseia, concebidas por volta do século 8.º a.C. e atribuídas a Homero.

ANDRÉ DE LEONES, ESPECIAL PARA O ESTADO, ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO , ROMANCE TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), DENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h09

Com mestrado em latim e grego antigo pela Brown University, ela não só tem currículo para dar conta da tarefa como foi devidamente recompensada pelo esforço, pois, além de se tornar um best-seller, o romance foi agraciado, em 2012, com o prestigioso Women's Prize for Fiction (até então conhecido como Orange Prize).

O narrador e protagonista de A Canção de Aquiles é Pátroclo. Personagem importante na Ilíada, uma vez que a famigerada ira de Aquiles só é deflagrada com a sua morte, ele é também o companheiro do semideus, isto é, seu confidente e amante.

A autora, nascida em Boston em julho de 1978, contextualiza muito bem essa relação de amizade, evitando anacronismos e tampouco forçando paralelos ou contrastes com os dias de hoje. Em outras palavras, o livro não é instrumentalizado. Se servir como mensagem de tolerância, ótimo, mas ele não parece arrogar para si esse papel.

Miller se apropria da voz de Pátroclo e estrutura o romance inteiro a partir dessa primeira pessoa que se dispõe a nos falar "sobre algo que não esteja morto nem seja divino", querendo, assim, que esse algo, Aquiles, viva. Talvez isso seja o objetivo último da melhor literatura: sustentar em vida, por meio da lembrança e da fabulação, aquilo que não está mais aqui. Não é por acaso que ainda hoje lemos a Ilíada.

Pátroclo começa dizendo que seu pai, Menécio, "era rei e filho de reis". Ele próprio, contudo, não compartilhará dessa herança nobiliárquica: é exilado depois de matar acidentalmente outra criança. Tem apenas 10 anos. Acolhido na pequenina Fítia por Peleu, ali conhece e é tomado como companheiro pelo filho deste com a ninfa Tétis, Aquiles. São educados pelo centauro Quíron, contornam o desagrado de Tétis quanto à sua relação e, mais tarde, não sem hesitar, eles se juntarão à expedição grega contra Troia.

O que está em jogo, para Aquiles, é a sua consagração como o aristos achaion, isto é, o "melhor dos gregos". É no campo de batalha que Aquiles tornará o seu nome imorredouro. Mas, claro, há um preço a ser pago.

A Canção de Aquiles, obra que a autora levou dez anos para concluir, cresce muito a partir da metade, quando os gregos desembarcam em Troia e tem início a guerra que se prolongará por uma década. Os acontecimentos da Ilíada dizem respeito à maior parte das cem páginas finais, quando Madeline Miller confecciona com extremo cuidado uma tapeçaria narrativa das mais finas. Em vez de simplesmente parafrasear Homero, ela usa a voz de Pátroclo para iluminar alguns pontos tocados marginalmente pelo original e também para obscurecer outros (o que foi feito de Páris quando de seu duelo contra Menelau, por exemplo?). A maior surpresa, entretanto, está no desfecho pungente, que reitera a importância da criação e da recriação literárias.

Por fim, talvez seja interessante frisar que o romance se dirige tanto aos leitores familiarizados com as epopeias quanto aos menos calejados, contando, inclusive, com um pequeno glossário de personagens ao final.

Mesmo no corpo da narrativa, embora isso eventualmente resvale num certo didatismo, Miller demonstra preocupação em contextualizar bem caracteres e situações. Graças a esse tipo de cuidado e também a um brilho narrativo próprio, temos um rico testemunho da grandeza de Homero e, ao mesmo tempo, algo que se sustenta por si só.

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