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Entre o progresso e a imobilidade

CRÍTICA: Júlia Murat estreia com filme que reflete a estrutura profunda do Brasil

O Estado de S.Paulo

06 Julho 2012 | 03h08

E m sua estreia como diretora de longas-metragens, Julia Murat acerta nas decupagens e no registro fotográfico. Julia é filha de Lucia Murat (diretora de Que Bom Te Ver Viva e Uma Longa Viagem). Mostra mão de cineasta nessa boa estreia, ao criar um ambiente fantasmagórico para a estada de Rita, a fotógrafa da cidade grande que entra em contato com os habitantes de um vilarejo.

Muito do que se sente é visto, e não passa pelo registro mais óbvio da palavra. Isso quer dizer que existe bastante sugestão e menos reiteração na maneira como tudo é construído no imaginário do espectador.

É assim que a câmera espreita essa cidadezinha de Jotuomba, vilarejo onde ninguém morre há muito tempo e, por isso, o portão do cemitério está fechado a cadeado. A vida segue seu cotidiano como o mecanismo de um relógio implacável. Pelo menos até a chegada de Rita.

Existe aí um diálogo não apenas com referências cinematográficas mais óbvias para uma filha de cineasta, mas também com a literatura. Vê-se, ou melhor, lê-se nas entrelinhas diálogo com os escritores do realismo fantástico, com García Márquez, em especial, mas também com o Rulfo de Pedro Páramo e sua cidade fantasmagórica. Jotuomba é um pouco como a Comala, de Rulfo, ou Macondo, de García Márquez. Pode-se ver, também, influência, não sabemos se consciente ou não, do Guimarães Rosa de Primeiras Estórias, em especial do esplêndido conto A Terceira Margem do Rio, cuja metafísica está longe de ser por completo explorada pela crítica. Existe aí a encenação do legado, ou do fardo da tradição, que é passado de pai para filho, o que é uma forma geral de dizer que passa de uma geração a outra.

Por outro lado, podemos ler também em Histórias Que Só Existem Quando Lembradas uma alegoria do contato do intelectual de classe média com o povo - tema que já consumiu tanta tinta desde os tempos do Cinema Novo.

No caso, basta lembrar que Rita é como a emissária da cidade grande (o lugar onde o tempo é tão acelerado que nos devora a todos) ao interior mítico (o lugar onde o tempo corre tão devagar que é como se tivesse parado).

Esse contato entre dois brasis não se dá sem fricção e acaba com a absorção de um pelo outro. Nesse sentido, o filme funciona um pouco com a metáfora do crescimento desordenado do Brasil e sua dialética entre a utopia de um progresso sem fim e o desejo idílico e nostálgico de que as coisas permaneçam como são e não se alterem. É uma metáfora sutil e não uma alegoria pesada como as que se faziam nos anos 1970.

Assim, a história de Rita (Lisa Fávero) só existe quando em contato com as histórias de Madalena (Sonia Guedes), que faz todo dia pão para o armazém do Antonio (Luiz Serra). Pode ser lida de maneira direta, como pequena fábula da velhice em presença da mocidade. Mas, como tudo se dá no plano do fantástico, põe em jogo uma estrutura profunda do País.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

BOM

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