José Patrício/AE
José Patrício/AE

Entre o novo e o clássico

Aos 21 anos, cia. Razões Inversas mantém vocação de oscilar entre as duas vertentes

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2011 | 00h00

Clássico ou contemporâneo? Eis uma dicotomia que nunca fez sentido para Marcio Aurélio. Enquanto fala sobre sua extensa trajetória, esse conceituado diretor oscila entre os dois mundos. Costura, constantemente, o passado e o futuro.

Ao revisitar os 21 anos de sua companhia, a Razões Inversas, ele salta, sem sobressaltos, de um universo a outro. Parece ter descoberto um lugar em que a busca por novos caminhos para o drama não exclui, jamais, o vínculo com a tradição.

É por isso que, no seu discurso, Newton Moreno - uma das vozes mais importantes da dramaturgia brasileira recente - não surge apartado de Bertolt Brecht. Tampouco existe um olhar que sirva para mirar Shakespeare e outro para Heiner Müller. "Eu sou um apaixonado. Então, a minha visão pode soar um pouco romântica. Mas eu sempre acreditei nisso", diz o encenador veterano, quase envergonhado do ímpeto juvenil.

A alegria renovada tem motivo. A companhia comemora o aniversário inaugurando uma sede - a primeira de sua história. Além disso, burila os detalhes para o próximo espetáculo. No dia 27, apresenta A Ilusão Cômica, texto do francês Corneille, escrito no século 17, que ainda permanecia inédito no Brasil. "Há 20 anos planejo fazer essa obra", conta. "É absolutamente revolucionária para a sua época".

Redimensionar a leitura dos clássicos para a contemporaneidade. Foi com esse pressuposto que o grupo nasceu em 1990. Era formado por alunos de Márcio Aurélio egressos da Unicamp. Gente como Leonardo Medeiros e Eucir de Souza, que depois foi buscar voo solo.

A primeira montagem surgiu confirmando a perenidade de Tennessee Williams. Tomava emprestado o mote de Fala Comigo Doce como a Chuva. Dava-lhe um título extenso: Vem, Senta Aqui ao Meu lado e Deixa o Mundo Girar... Jamais Seremos Tão Jovens. E, sobretudo, tratava de abri-lo, reformulando sua linguagem. "Deixou de ser a história de amor de um casal em uma grande cidade americana. Tornou-se uma peça sobre o abandono da juventude em qualquer metrópole", lembra o encenador.

Expediente semelhante foi repetido nos espetáculos que se seguiram. No ocaso do governo Collor, o diretor levou à cena sua leitura de Ricardo II, obra de Shakespeare sobre a deposição de um rei. Na Alemanha, mostrou uma versão pessoalíssima de O Beijo no Asfalto. Colocou Nelson Rodrigues em nova perspectiva. Pouco depois da morte trágica da princesa Diana, serviu-se do dramaturgo para lançar luz sobre o atual assédio da imprensa às celebridades.

O trágico, aliás, esteve sempre à espreita. Não importa muito em que época o texto foi concebido. Anatomia Frozen (2009), de Bryony Lavery, e Agreste (2004), de Newton Moreno, comprovam a inclinação. Desvelam facetas da vilania pelo olhar de jovens dramaturgos.

Para 2012, a intenção é desdobrá-las em uma trilogia sobre a crueldade humana. Está prevista para fevereiro, a estreia de Woyzeck. Marco do drama burguês do século 19, a criação de Georg Büchner vê um homem conduzido à loucura pela pobreza e imoralidade do mundo em que vive. "Aparecem reunidas nessas três peças todos os grandes defeitos da sociedade", considera o diretor.

Longa festa. Em vez de concentrar os festejos pela maioridade em um evento único, o grupo preferiu estendê-los ao longo do ano. Além de seguir em turnê pelo País com Agreste e Anatomia Frozen, também prepara a remontagem de uma de suas criações mais marcantes para o dia 1o de novembro.

Marco do pré-romantismo, A Bilha Quebrada é uma comédia do alemão Henrich von Kleist e foi encenada pela cia. em 1993. "Como se passou muito tempo, a minha relação com o espetáculo mudou completamente", diz Marcio Aurélio.

O que não mudou muito ao longo dos anos é o método de trabalho que deu nome à trupe. "Colocamos todas as razões na roda, que podem ser divergentes, até chegar a um denominador comum."

Nesse contexto - de revisão da própria identidade - a escolha de A Ilusão Cômica não deixa de adquirir outros significados.

A peça de Corneille pode ser vista como uma reflexão sobre as relações entre pais e filhos. E até mesmo como um prenúncio da Revolução Francesa que eclodiria um século depois. Mas chama a atenção, especialmente, pela maneira como se detém sobre o teatro como ofício. Traz uma peça dentro da outra, revela como funciona essa grande máquina de criar ilusões.

TRAJETÓRIA

Vem, Senta Aqui...

Espetáculo de 1990 marca estreia do grupo

Ricardo II

Clássico de Shakespeare montado em 1992

Senhorita Else

Versão de Arthur Schnitzler faz sucesso em 1997

Maligno Baal, o Associal

Em 1998, montam obra de Bertolt Brecht

Fausto Zero

Texto de Goethe é encenado em 2000

Édipo Rei

Tragédia de Sófocles ganha versão em 2000

REMONTAGENS

A Bilha Quebrada

Sucesso da Razões Inversas em 1993, a peça merece nova versão, com estreia marcada para o dia 10/11. Comédia do século 19, escrita pelo alemão Heinrich von Kleist, o espetáculo surge como uma sátira à corrupção

e ao falso moralismo.

Agreste

A encenação da obra por Marcio Aurélio, em 2004, notabilizou o dramaturgo Newton Moreno. A montagem rendeu-lhe os prêmios Shell e APCA de melhor autor. Permanece em cartaz desde sua estreia e já percorreu grande parte do País.

Anatomia Frozen

O texto da inglesa Briony Lavery mereceu montagem do grupo em 2009 e rendeu a Marcio Aurélio o prêmio de melhor diretor pela APCA. Em cena, surge a mesma dupla de atores de Agreste: Joca Andreazza e Paulo Marcello.

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