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Entre o Mundo e Ele

“A raça é a filha do racismo, não a mãe” (Ta-Nehisi-Coates em Between the World and Me)

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2015 | 02h00

O livro mais importante deste verão americano é também o mais vendido. Between the World and Me (Entre o Mundo e Eu), com apenas 150 páginas, tem gerado grande quantidade de prosa, debates na TV, no rádio e em podcasts. O livro é apresentado como uma carta do autor, um dos melhores ensaístas sobre a questão racial americana, a seu filho Samori, que vai completar 15 anos. O formato homenageia James Baldwin, que escreveu uma carta-ensaio para seu sobrinho de 14 anos, na década de 1960, sobre o papel da raça na história americana. Coates é descrito pela romancista Toni Morrison como o herdeiro do grande romancista, dramaturgo, poeta e crítico social Baldwin, morto em 1987.

A publicação do livro foi antecipada para este mês por causa do massacre na histórica igreja afro-americana de Charleston, Carolina do Sul. Num perverso alinhamento de tragédia e marketing, um novo ataque aconteceu em Lafayette, na Luisiana. Um desempregado com passado de violência e doença mental disparou dentro de um cinema, matando duas pessoas e ferindo nove. Tentou escapar mas, cercado pela polícia, se suicidou. Assim como o assassino de Charleston, o atirador de Lafayette era conhecido por sua simpatia a movimentos supremacistas brancos.

Entre o Mundo e Eu não é um livro de memórias convencional, embora o autor revisite momentos de sua vida, enquanto se dirige ao filho. Uma motivação para escrever o livro foi a reação do adolescente à absolvição do policial que matou o jovem Michael Brown em Ferguson, Missouri, em 2014. Samori foi para o quarto chorar. Coates sentou ao seu lado em silêncio em respeito ao momento, não disse que tudo ia melhorar – “Os Estados Unidos se consideram um trabalho de Deus, mas o corpo negro é a prova mais clara de que o país é fruto dos homens”, escreve.

Ta-Nehisi Coates cresceu em Baltimore, Maryland, cercado de violência mas, ao contrário da maioria dos negros com quem conviveu, cresceu com um pai e uma mãe juntos, empregados, numa existência de classe média.

O medo é um protagonista da narrativa. O medo está atrás da violência punitiva de seu pai, um ex-Pantera Negra que não hesita em usar o cinto porque a alternativa é “apanhar da polícia.” O medo está na indumentária dos jovens, na sua atitude de alerta na rua. O medo segue o menino, o adolescente e o jornalista adulto, cujos músculos ainda se contraem quando pisa fora de casa, ao se mudar para o Brooklyn, pouco antes do 11 de setembro.

O momento mais devastador do livro ocorre quando Nehisi-Coates vai visitar Mable Jones, mãe de Prince, seu colega de escola, morto há quinze anos pela polícia do estado de Maryland. O policial que “confundiu” o enorme Jones com um suspeito menor e muito mais baixo está de volta às ruas. A Dra. Mable Jones, filha de arrendatários dos campos do Sul, fez, como lembra o autor, “tudo certo”, numa alusão à propaganda do sonho americano. Conseguiu estudar e se tornar radiologista, protegeu o filho o mais que pôde e tudo desmoronou num momento de racismo.

O livro do jornalista não oferece um arremate como os discursos de Barack Obama. E Coates está longe de se juntar ao coro acrítico pelo fato de Obama ser o primeiro presidente negro. Ele confessa que suas convicções políticas se tornaram mais radicais nos últimos 18 meses. Obama é seu leitor assíduo e os dois discutiram intensamente num encontro off the record com jornalistas. Embora use “sonho” e “sonhador” para expor a narrativa de excepcionalidade que ignora o pecado original na fundação do país, Coates sabe onde vive: “Eu sou um americano e acredito em ideais americanos”, diz. Não há nada errado em ter ideais, conclui, desde se reconheça a realidade. O mais importante, diz ele, é ficar do lado certo da história. 

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