Entre o fio das horas e da ficção

Nova edição reúne, em caixa, os três volumes de Tempo e Narrativa, do francês Paul Ricoeur - um extraordinário esforço de reflexão sobre o tema desde Aristóteles e Santo Agostinho

SÉRGIO DE GOUVÊA FRANCO, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Acaba de sair no Brasil nova tradução do monumental Tempo e Narrativa, de Paul Ricoeur, em uma edição bem cuidada e com boa tradução, que coloca os três volumes em uma simpática caixinha, com introdução do professor de filosofia brasileiro Hélio Salles Gentil.

O francês Ricoeur é menos conhecido no Brasil do que deveria. Ao morrer em 2005, aos 92 anos, foi saudado em toda parte como um dos mais importantes pensadores do pós-guerra. "Deixa um grande vazio no pensamento filosófico francês e um imenso e respeitável legado no mundo intelectual do Ocidente", disse então a professora Maria Clara Bingemer, da PUC do Rio. Quem poderá corretamente avaliar este legado?

Herbert Spiegelberg observou, em The Phenomenological Movement, de 1969, que entre os novos filósofos, Paul Ricoeur é, sem dúvida, o que tem dado a contribuição mais notável à fenomenologia, tanto pela extensão quanto pela originalidade de sua obra. Passadas várias décadas, não há razão para se deixar de afirmar a grandeza do seu pensamento.

Homem contemporâneo, teve uma existência marcada pelas duas grandes guerras. Nasceu em Valence, sudoeste da França, em 1913, seis meses antes de a Alemanha invadir a França. A primeira guerra levou seu pai quando tinha pouco mais de 2 anos. Por toda a vida, Ricoeur guardou uma foto do pai com ele, menino pequeno, e a irmã nos joelhos.

Se o tema do livro agora relançado no Brasil é o tempo e como falamos sobre ele, esta história merece ser mencionada. Em uma entrevista em 1994, ele descreveu essa experiência tão inquietante de o tempo passar e a foto permanecer a mesma: "A única imagem que tenho dele", contou. "Finalmente fiquei mais velho que meu pai". Já velho, disse: "Ainda hoje tenho dificuldade de lidar com esta imagem paralisada para toda a eternidade como jovem".

Esteve preso durante quase toda a 2.ª Guerra em um campo de concentração alemão, de 1940 até ao fim da guerra. Durante esse período se dedicou ao estudo de Husserl, Heidegger e Jaspers. A Cruz Vermelha estava autorizada a oferecer-lhe livros de filosofia de autores alemães, que estudou com afinco. Nessa ocasião, organizou um curso de filosofia para os companheiros de prisão. A qualidade do curso era tão boa que o governo francês chegou a reconhecer como oficiais os cursos ministrados no campo de concentração. Essas experiências marcantes, além de tantas outras, fizeram de Ricoeur um intelectual com "rigor e paixão". Formado na tradicional Sorbonne, seu pensamento nasceu da inquietação e da experiência existencial intensa.

Creio que pouca gente leu tanto, escreveu tanto e compreendeu autores tão diversos. Começou a publicar com 23 anos e nunca mais parou, até o fim da vida. Impossível discutir aqui, neste espaço, sua obra tão ampla. Menciono apenas seu livro Da Interpretação - Ensaio sobre Freud, de 1965, um clássico em que estuda Freud com a seriedade dos melhores filósofos.

Tempo e Narrativa foi publicado entre 1983 e 1985. A obra está dividida em quatro grandes partes. A primeira promove uma circulação das noções de tempo que aparecem no livro XI das Confissões de Santo Agostinho e das noções de intriga na Poética de Aristóteles. As ideias são depois testadas, nas demais partes do livro, no campo da narrativa ficcional e da narrativa histórica. Trata-se de um grande esforço de lidar com a experiência humana,??? com o tempo e com a percepção de si na passagem do tempo. Fiel à suas posições intelectuais, recusa uma solução apenas pela razão: não somos plenamente compreensíveis para nós mesmos; a existência supera em muito a consciência. Nossas perplexidades não podem ser resolvidas apenas intelectualmente. A proposta de Ricoeur, para uma superação apenas parcial, é uma dialética entre os polos objetivo e subjetivo.

No capítulo inicial destaca a extraordinária pergunta de Santo Agostinho: "afinal, o que é o tempo?". Ricoeur reconhece que a linguagem do pensador cristão é incontestavelmente aporética, ou seja, marcada pela dificuldade, pelo conflito e pela dúvida. É exatamente essa marca aporética que interessa a Ricoeur. A ruminação inconclusiva sobre o tempo o conduz a buscar na narrativa socorro, começando o estudo com a noção de intriga em Aristóteles. Não que a narrativa vá resolver os impasses, mas oferece um recurso de esclarecimento poético da vivência no tempo.

No terceiro capítulo, com o mesmo título do livro, trabalha criativamente a circulação tempo-narrativa. É a fala, é a linguagem que organiza a experiência do "eu" no tempo. A narrativa é uma mimésis, ou seja, uma imitação do vivido que se organiza em uma trama, que dá sentido sempre precário, mutante e poético para a experiência. Ela é um ato criador que faz uma tessitura dos fatos e vivências alinhados em uma intriga. Cumpre seu papel quando reconcilia o humano com a dura, terrível mesmo, experiência no tempo. A narrativa não é ato apenas intelectual, mas uma manifestação concreta, política poderíamos dizer, um ato de vontade, que toma partido, escolhe e corajosamente organiza a experiência que se torna, assim, um pouco mais compreensível e humana.

SÉRGIO DE GOUVÊA FRANCO É DOUTOR PELA UNICAMP COM TESE SOBRE O AUTOR DE TEMPO E NARRATIVA PUBLICADA SOB O TÍTULO HERMENÊUTICA E PSICANÁLISE NA OBRA DE PAUL RICOEUR (EDIÇÕES LOYOLA). PÓS-DOUTOR EM PSICOLOGIA PELA PUC-SP, PSICANALISTA COM FORMAÇÃO NO INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE E PROFESSOR. FOI REITOR DO CENTRO UNIVERSITÁRIO FECAP NO PERÍODO DE 2006 A 2010

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