Alexandre Lima/Divulgação
Alexandre Lima/Divulgação

Entre o coronel Nascimento e a fé

Recorde histórico é de Tropa de Elite 2, mas a religiosidade ganhou mais espaço

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Algo de muito importante ocorreu no cinema brasileiro nesta década. Ao longo de sua história, o cinema nacional atravessou muitas crises, mas nenhuma tão grande quanto a que se originou do fechamento da Embrafilme, no governo Collor, que estancou as fontes de financiamento à produção e distribuição. O cinema brasileiro foi ao fundo do poço. Carla Camurati iniciou a chamada Retomada com Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, em 1995. A grande notícia, nesse fim de 2010, é que a Retomada acabou.

Quem lhe lançou a pá de cal foi o fenômeno Tropa de Elite 2. O primeiro filme da série de José Padilha havia sido um estouro de pirataria. Era essencial evitar isso em Tropa 2 e mil e uma medidas de segurança foram tomadas. O próprio público correspondeu e, posto que o tema embutido em Tropa 2 é a discussão da ética (na política, na polícia, na vida social), as pessoas não compactuaram com a pirataria e foram ver o filme no cinema.

O estouro foi tão grande que, aos poucos, se criou a expectativa de que Tropa 2 batesse o recorde histórico de Dona Flor e Seus Maridos (1976), de Bruno Barreto, com 10,7 milhões de espectadores. Padilha foi sempre refratário a essa disputa, um pouco porque gosta do filme de Barreto, mas também porque sua meta era bater os 11 milhões de espectadores informais (das fitas piratas) de Tropa 1. Mas ele reconheceu a importância de bater Dona Flor.

Antes, havia um ranking de avaliação do desempenho de bilheteria dos filmes brasileiros. Os anos 1970 eram considerados a época de ouro. Ao derrotar Dona Flor, Tropa 2 estabelece um só ranking e encerra a Retomada. Há mais - poucos filmes de qualquer país, em qualquer época, tiveram um impacto tão forte na vida social. O agora Coronel Nascimento virou a representação do herói brasileiro. Ele motivou o público e o sucesso do filme com certeza fortaleceu a decisão de pacificar as favelas do Rio.

Houve grandes filmes. A maior ficção? Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. O melhor documentário? Santiago, de João Moreira Salles. Escolhas que não serão unânimes.

O público oscilou ao longo da década e 2010 se encerra quase tão bom, com uma participação no próprio mercado tão expressiva como a de 2003. Os números não são a única nem a melhor maneira de avaliar o que de melhor se produziu no período.

Muita inovação, às vezes, tende a assustar. Mas o tema da segurança em Tropa 1 e 2, e a questão da religiosidade popular - o espiritismo - marcaram 2010. No início da década, documentários, como Santo Forte, de Eduardo Coutinho, colocavam em xeque não só a religião, ou as religiões, mas a fé - no próprio cinema do País. A questão volta a ser de fé, mas agora é uma nova fase que se abre. A Retomada acabou, viva o cinema brasileiro.

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