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Entre o café e o uísque

O segredo do negócio é tentar encontrar algum significado durante essas horas que separam o ponto A do ponto B

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 05h00

Você começa o dia com um café. E termina com um uísque. No meio, você vai enchendo de coisinhas.

A vida, portanto, é aquilo que acontece entre o café e o uísque. O segredo do negócio é tentar encontrar algum significado durante essas horas que separam o ponto A do ponto B. Esse tempo pode ser preenchido por um trabalho duro ou por um dia desses de babar no sofá da sala, tanto faz. 

Se você não estragar tudo entre o café e o uísque, você já é um vencedor. Mas, infelizmente, o nosso impulso é cometer desatinos nesse meio tempo.

Quantas besteiras você já fez durante essa pandemia?Tem aquele dia em que você acorda e, logo depois do café, pensa: “vou cortar meu próprio cabelo e pintá-lo de azul”. Ou chega a cogitar algo como: “se eu me pendurar pelo lado de fora, consigo limpar essa mancha ridícula na janela”.

Teve um dia em que pensei: “hum, e se eu comprasse um tapetinho de ioga...” E teve outro momento em que me pareceu aceitável fazer aulas de violão online ou aprender passos básicos de rumba. Outros dias, antes da hora do uísque, você começa a achar razoável “escrever para uma ex” ou “pedir as contas no trabalho para viver como caçador de ÓVNIS em Magé”. Um pouco antes da hora do uísque é super perigoso. É aquela horinha que bate a carência e os grandes dilemas da existência atacam nossas defesas já fragilizadas pelo isolamento. Você acaba se achando um Nietzsche, mas agindo como um bocó (adoro a palavra bocó).“Ah, qual o problema se eu aceitar aquele convite para participar de uma festa clandestina na casa daquele conhecido negacionista? É só para dar uma respiradinha, conhecer umas pessoas...” 

Além do café e do uísque, o tempo também pode ser dividido em períodos menores. A vida também é aquilo que acontece entre um comercial do Boston Medical Group e a propaganda do alarmes monitorados Verisure (adoro a interpretação brechtiana dos atores).

Neste pequeno intervalo de tempo, você também pode estragar tudo. O esforço é não cometer desatinos, como comer uma lata inteira de leite condensado, mandar nudes, defender um participante do Big Brother no Twitter ou fazer um Pix não solicitado – com uma mensagem engraçadinha.

Como diria Vinicius de Moraes, “são demais os perigos dessa vida”. Principalmente, acredito eu, durante uma pandemia. 

Como a vida anda muito restrita, concentrada, quase uma existência no modo haicai, tudo é amplificado e multiplicado. Uma mensagem respondida com desleixo ou um “bom dia” com a voz errada pode desencadear uma sequência de acontecimentos trágicos. 

Ou seja, quem atravessa um dia de home office (do café ao uísque) sem arranhões sérios merece uma estátua. 

Vou tomar o meu café. E fazer o meu melhor para chegar ao meu uísque. Ninguém disse que seria fácil.

*É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA

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