Entre o abstrato e a vida mundana

Editado pela primeira vez no Brasil, o romance Os Embaixadores demonstra a agudeza de Henry[br]James na observação do comportamento humano, em torno de temas como família, pureza e inocência

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

O escritor americano Henry James (1843- 1916) disse no prefácio a Os Embaixadores que o gênero romance ("novel", em inglês) continuava sendo "a mais independente, a mais elástica, a mais prodigiosa das formas literárias". E o romance que se segue, publicado pela primeira vez em 1903, é claramente uma tentativa de James de levar a forma ao máximo de independência, elasticidade e prodígio de que era capaz. Não por acaso, ficou tão satisfeito com o resultado que declarou ser seu melhor livro. Poucos críticos e leitores concordam com a escolha, mas ninguém tira de Os Embaixadores o rebuscamento, o auge de seu domínio dos recursos ficcionais. A controvérsia é sobre se James conseguiu injetar bastante vida nessa forma, não se a tinha sob fino controle.

Uma edição dessa relevância, com a primeira tradução para a língua portuguesa - por Marcelo Pen - de um livro importante, exige que falemos antes sobre o controle e depois sobre a controvérsia. Relido, o livro que James publicou aos 60 anos, seu 18º e antepenúltimo romance acabado, se parece muito mais com um fecho de ouro - da mais educada ourivesaria - para os "romanções" do século 19 do que com uma obra de virada para o modernismo. Em outras palavras, está mais para Jane Austen, George Eliot (o pseudônimo de outra escritora genial, Mary Ann Evans) e Charles Dickens do que para Marcel Proust, James Joyce e Thomas Mann (ou mesmo Joseph Conrad).

Não há juízo de valor aqui. Lendo James, nos sentimos no mesmo mundo moral, no mesmo tipo de enredo e abordagem de dilemas psicológicos em painéis sociais, que conhecemos da tradição inglesa ("a grande tradição", na expressão consagrada pelo crítico F. R. Leavis) e da francesa (Balzac, Stendhal, etc). Não vemos a radical fusão com o ensaio e os longos fluxos de voz interior que virão logo depois, em obras como No Caminho de Swann, Ulisses e Dr. Fausto. Ao mesmo tempo, esses elementos parecem estar ali, em estado de gravidez, prestes a serem paridos, porém refreados pelo imenso apego de James àquela tradição, por seu senso de gravidade, "gravitas", como ele mesmo dizia.

Em algumas passagens, o protagonista, Strether, um americano vagando por Paris em busca do filho de sua noiva, Chad, fala e age como um personagem de Proust, como no momento em que decide entrar na catedral de Notre Dame, "um bálsamo quase sagrado", para se refugiar no encanto e afugentar os problemas, "ausentes do ar dos extensos corredores e do brilho dos múltiplos altares". Ou quando está no campo e descreve o pátio diante de um restaurante, Cheval Blanc, como uma cena de um quadro, com os salgueiros à brisa, o muro verde cúprico, um barco no rio azul cobalto chegando com um casal. Como Proust, James foi crítico de arte bissexto e levou seu gosto pictórico para a ficção.

Mas essas passagens não dão a tônica do romance. O que dá é a agudeza da observação do comportamento humano tal como expresso em situações domésticas, familiares, em torno de temas como virtude, de palavras como pureza e inocência. Depois de um diálogo entre Strether e Madame de Vionnet, a francesa que lhe parece uma síntese da elegância e do "savoir vivre" europeu, mãe da bela e diáfana Jeanne, o texto nota, por exemplo, como ela precisou de poucas palavras para "cravar um minúsculo prego dourado" e mostrar a ele que desconhece os sentimentos femininos. Strether quer que Chad e Jeanne se entendam, mas Chad, como o próprio padrasto, parece mais interessado na mãe...

Como sempre em James, que se naturalizou inglês e aparece no retrato do amigo John Singer Sargent com a pose de um aristocrata saxão, o americano vulgar se deixa encantar pelo Velho Continente e passa a ter a forte sensação de que desperdiça sua vida - como confessa em memorável conversa com Bilham, amigo de Chad, ao se referir a "essa geleia indefesa que chamamos de consciência" e lhe dizer para aproveitar a liberdade da juventude: "Viva tudo o que puder; é um erro não fazê-lo". Não que a Europa seja só um museu de encantos; é também seu reverso, um jardim de ruínas - e a meditação de Strether vai ficando mais e mais melancólica à medida que vê a frustração e o medo que se escondiam sob o glamour e a cultura. Tanto que decide voltar para os EUA, mas não para a vida que levava antes. É um dos desfechos mais sombrios da obra de James.

Agora, a controvérsia. O citado Leavis foi um dos que não gostaram do romance por sua lentidão, pelo tamanho desproporcional (mais de 520 páginas) em relação à simplicidade da trama, pelo fato de que não partilhamos com clareza o que tanto deslumbra Strether. Na realidade, Leavis admirava mais o James de Retrato de uma Senhora (1881), mais enxuto e menos "elástico", e até o James de Pelos Olhos de Maisie (1897), do que o que veio a partir de As Asas da Pomba (1902). Já Ian Watt, autor de outro célebre estudo sobre o gênero, A Ascensão do Romance, diz, em análise incluída no posfácio, que a prosa de James atingiu naquela fase a riqueza de textura da poesia.

As duas reações são exageradas. De fato, James não é leitura fácil e quem começar sua obra por este romance tende a considerá-lo chato demais, já que não tem a tapeçaria de detalhes de Austen nem a força dos personagens de Dickens, nem mesmo o quebra-cabeças dos enredos de George Eliot. É melhor começar por novelas como Daisy Miller e depois romances como os citados Retrato de uma Senhora, tão sugestivo e intenso ao mesmo tempo, e Pelos Olhos de Maisie, com sua família já moderna. Mas as recompensas de sua prosa madura ficam evidentes em Os Embaixadores, pela maneira como mostra as transformações de seu personagem e as traduz em descrições e reflexões, costurando o psicológico e o social, o sensível e o abstrato, o mundano e o intelectual, como um herdeiro legítimo, convicto e renovador de uma nobre linhagem.

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