Entre dois amores

Mia Hansen-Love fala sobre seu novo longa, Adeus, Primeiro Amor

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h08

Há dez anos ela é companheira do diretor Olivier Assayas, um dos mais importantes da França - mas Mia Hansen-Love faz questão de ressaltar que são companheiros. "Não somos casados." Ela própria é uma autora prestigiada - e premiada. Estreia hoje seu terceiro longa, Adeus, Primeiro Amor. O lançamento brasileiro pega carona no título internacional, que a própria Mia sugeriu. "É a frase de uma música da String Band que eu ouvia muito durante a fase de confecção do roteiro, Good-bye First Love." No original, chama-se Un Amour de Jeunesse, um amor de juventude.

"É meu filme mais autobiográfico", explica Mia, numa entrevista feita por telefone, de Paris. Nos dois primeiros, Tout Est Pardonné e O Pai de Meus Filhos, ela se inspirou em histórias de amigos. "São dois filmes que tratam da relação entre pais e filhos. Depois de investigar tanto a vida dos outros, e mesmo sendo pessoal, senti necessidade de ser mais eu, falando na primeira pessoa." O filme é sobre essa garota, indecisa entre dois amores.

"Justamente porque tratavam da relação entre pais e filhos, entre pai e filha, eram filmes sobre ligações, ou amores, muito espirituais. Dessa vez estou querendo ser mais carnal, falar do amor físico. Creio que consegui, a se julgar pelas reações que o filme provocou." Mia é uma diretora que aposta em densidades e sutilezas. Ela conta uma história, mas investe muito mais nos climas, nos pequenos detalhes que não fazem uma narrativa retumbante, de ação. Seus modelos são dois autores da Nouvelle Vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, François Truffaut e Eric Rohmer.

Com Truffaut, a identificação é afetiva. "Adoro a forma como ela fala de sentimentos, como é romântico ao mesmo tempo em que desconfia do romantismo." Com Rohmer, a conversa é outra. "É meu mestre da linguagem. A escritura nos filmes de Eric quase não aparece. E ele faz uma coisa que me interessa muito. Faz filmes muito dialogados, mas nos quais o silêncio entra como pausa, sem chamar a atenção. Quando isso acontece e a gente tem consciência do silêncio, acho artificial."

Há toda uma conversa sobre arquitetura em Adeus, Primeiro Amor. "São as duas disciplinas que mais me interessam, o cinema e a arquitetura", Mia conta. "Quando jovem, eu escrevia poesia, vivia fechada em mim mesma. O cinema me fez aceitar e compreender a necessidade do outro. Escrever pode ser uma atividade solitária, mas filmar é se abrir para o mundo. Você precisa da equipe. Com a arquitetura, é a mesma coisa."

Ela poderia ter feito da garota do filme uma aspirante a cineasta, mas aí estaria se limitando. "Faço filmes para entender o mundo - e a mim mesma. Fazendo dela uma arquiteta, tenho de deixar de ser autocentrada, mesmo sendo autobiográfica." A música é fundamental. No cinema de Olivier Assayas ocorre a mesma coisa, o repórter observa. Ela diz que a música é inspiradora, mas tem de participar da cena. Não está lá por acaso. Na trilha, você vai identificar Violeta Parra. "É maravilhosa a emoção que põe na voz, cantando os próprios versos, isso me encanta."

A ligação com Assayas começou quando ela foi atriz dele, em Les Destinées Sentimentales, em 2000. No ano seguinte, passaram a viver juntos. Por coincidência, Assayas faz agora novo filme, também centrado nas relações entre adolescentes. Mia escreve, ainda tentando definir um tema, outra história para filmar. "Gosto muito de escrever, é uma etapa que me inspira muito. Mas hoje em dia não consigo mais escrever se não for para um filme. Tenho a necessidade de ouvir minhas frases ditas por atores." A atriz Lola Créton, que faz Camille, é ótima. "Não escrevi o papel para ela, mas no momento em que a vi em Barbe Bleue, de Catherine Breillat, descobri que havia achado minha protagonista."

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