Entre avanços e instabilidade

Conquistas foram expressivas, mas se mantém como grave questão a sobrevivência de profissionais

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2010 | 00h00

Dança foi o que não faltou em 2010. A princípio, o aumento na produção seria um ótimo motivo para comemorar, mas, infelizmente, a situação é um pouco mais complexa. Foi um ano importante em políticas públicas, porque nele se publicou o Plano Nacional da Dança. Fruto do Plano Nacional da Cultura (que foi gestado nas Pré-Conferências Setoriais que reuniram representantes de 14 linguagens artísticas de todas as regiões brasileiras), será, de agora em diante, o norteador das diretrizes a serem adotadas.

Apesar dessa conquista expressiva, no Brasil, o dia a dia de quem pretende viver profissionalmente de dança permanece instável. A sobrevivência depende dos editais, e eles continuam atendendo somente a demandas imediatas. Infelizmente, ainda não contemplam programas de média e de longa duração que diferenciem quem começa de quem já tem percurso, abrigando ambos em rubricas específicas.

Na prática, o tipo de financiamento para a dança que existe hoje implica uma alucinada fabricação de projetos com todos os gatos amontoados no mesmo saco. Boa parte do tempo dos artistas é dedicada a inventar projetos, modelizando a sua arte no formato das linhas de montagem da eficiência desenhado por Henri Ford para suas fábricas.

Muitos projetos, muitos editais, muitas coreografias. Tudo muito rápido e ritmado pela insalubre associação entre arte e consumo, que não é a mais recomendável quando se dá prioridade à pesquisa artística.

Na cidade de São Paulo, a Lei de Fomento à Dança acelera ainda mais o sistema estabelecido em todo o País porque aumenta aqui a quantidade do que é produzido. Quando se iniciava o importante movimento de reflexão sobre o que a gestou e no que ela se transformou, a classe, surpreendida pelo Decreto 51.300, que modifica a sua atual estrutura jurídica, já se mobilizou para mais uma luta política, convocando uma reunião para o próximo dia 10 de janeiro, às 20 horas, no Galpão do Folias (Rua Ana Cintra, 213, no bairro de Santa Cecília).

Um outro fantasma, esse já com um ano de vida, continua assombrando a área. Trata-se do Complexo Cultural que o Estado ameaça construir na vizinhança da sede da Osesp (nossa orquestra estadual). Apelidado de "Teatro da Dança", esse fantasma autista - que reproduz um modelo de gestão pública que prioriza edificações milionárias que desprezam a relação custo-benefício (tanto na sua construção quanto na sua manutenção) - não se comunica com as necessidades da dança que São Paulo produz.

Como foi gestado em gabinete, sem a indispensável consulta à pluralidade dos profissionais da área da cidade na qual será instalado, transferirá para a materialidade dos muitos vidros da sua arquitetura o que o Estado já pratica com o seu orçamento de dança. Como se sabe, a predadora desproporção entre o que é destinado para uma única companhia (São Paulo Companhia de Dança) e o que sobra para todas as outras atividades em dança do Estado de São Paulo está muito longe do que se espera de uma gestão democrática.

Mas há esperança. A recente edição do Rumos Dança abandonou o problemático modelo de festival-vitrine, demonstrando ser possível apoiar a pesquisa; no próximo ano, o Ballet Stagium vai completar 40 anos de luta, fazendo desse marco um exemplo de coerência de percurso para inspirar quem vem vindo; fortalece-se a percepção entre vários coreógrafos de que também na dança é necessário praticar uma "epistemologia do sul" - conceito do sociólogo português Boaventura de Souza Santos que põe em questão a importação que os colonizados continuam a fazer de padrões dos colonizadores.

E, felizmente, começa a se popularizar a compreensão de que é preciso conhecer a economia da dança para fazê-la avançar politicamente. Seminários são organizados, grupos de discussão têm sido montados, atestando a vitalidade do assunto. Porque apenas a consolidação de um discurso competente conseguirá sacudir os que ainda estão apáticos para lidar com as urgências que já se instalaram. Esse é o caminho a ser tomado em 2011, para que, ao seu final, o balanço sobre a dança que nele se produziu seja outro.

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