Entre as coisas e os signos

Mesmo tendo pontos de partida distantes, Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista, e Junco, de Nuno Ramos, aproximam-se em sua exploração plena da língua poética

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h07

Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista, e Junco, de Nuno Ramos, são livros distantes, mas será que obras poéticas estão condenadas a não se encontrarem jamais? O objetivo da poesia que mereça assim ser chamada é pôr a linguagem em xeque e, a partir daí, provocar uma releitura de presente e passado. É o que vemos nesses dois livros.

Pensando nessa direção, o volume de Josely é um norte. Ele lida diretamente com a história de um povo indígena, os m'byá-guaranis, e seu mito da criação do universo a partir do verbo - há outros exemplos mais ou menos coincidentes pelo mundo e o mais óbvio é o hebraico e a gênese pelos enunciados divinos que no momento da fala formam as coisas. A primeira parte do volume é formada por uma tradução dos poemas orais daqueles guaranis, mas, não podemos nos esquecer, toda tradução poética vigorosa é também uma prática que torna o texto traduzido parte da expressão pessoal do poeta-tradutor.

Isso tem um duplo aspecto no trabalho de Josely. Se o ponto de partida é a chamada poesia étnica, como observa o apresentador Luis Dolhnkoff, também poeta, a versão e inclusão do poema original no campo de outro idioma e cultura provoca uma desestabilizadora mudança de status. O novo poema, pode-se dizer assim, inscreve-se então no universal, em que o étnico se esgarça para se espelhar nos outros que são ele mesmo. Temos uma perda e uma salvação. Espera-se que o grupo guarani mantenha sua cultura viva, mas será que essa cultura poderá se sustentar caso não seja levada a esse diálogo, contribuindo para o enriquecimento do grande repertório? Ao lado das questões que suscita, a tradução de Josely é entusiasmante pela recuperação de valores estéticos, não como apropriação dominadora, mas como abertura a essa fonte talvez surpreendente.

A bela aventura de Josely ao trabalhar a poesia formadora do mundo leva a um rompimento com a ideia que se tem da poesia reduzida a gênero literário, recuperando-a em sua matéria de vida anterior a determinados conceitos funcionais de literatura. A poeta traz para a literatura brasileira uma proposta de reflexão criativa. Cito apenas o início de Os Primitivos Ritos do Colibri: "Nosso primeiro Pai, sumo, supremo, / a sós foi desdobrando a si mesmo / do caos obscuro do começo". Pode-se notar sem esforço o frescor inaugural do mito que a autora tornará seu e nosso ao mesmo tempo em que tenta a fidelidade à origem identificada com o ser humano de sempre. Os poemas traduzidos são acompanhados da versão guarani e de notas que alargam os horizontes do texto, como disse, inscrito na vida. A apresentação de Dolhnikoff é certeira ao notar que o volume, no conjunto abrangendo traduções e os poemas "próprios" de Moradas Nômades, "fundem o mais arcaico ao mais moderno num gesto essencialmente moderno", ou contemporâneo. Não há, a rigor, dois livros nesse volume, pois as duas partes se completam. Como diz a poeta: "Nenhum gesto / sem passado / nenhum rosto / sem o outro".

Em Junco, Nuno Ramos, um dos mais brilhantes artistas plásticos deste país, demonstra de novo que coisas, palavras e a busca de significados onde não parece haver significado nenhum são a matéria da arte em qualquer uma de suas modalidades. Ramos não vai ao arcaico, neste caso, mas busca no mais imediato, no mais casual - um cão morto à beira da estrada -, os caminhos da emoção interpretativa resumida nas metáforas de seus poemas. Ele atua no limite da redução de tudo ao inanimado, quando seres vivos, os homens, também se revelam objetos sujeitos a qualquer tipo de uso e descarte, representados pelo cão morto ou por um tronco atirado à praia pelo mar, à espera da lixeira ou de algum poeta.

Como tornar esses exemplos do acaso (como o próprio poeta) elementos providos de sentido? O que fazer quando se percebe de maneira distinta o pulsar do coração e o signo? Onde está o vínculo da coisa com a palavra, numa direção inversa ao dos poemas guaranis? O artista sonha a divisão entre o plástico e o verbal e questiona o modo de perceber, ou seja, o conhecimento e a cisão ideológica entre coisa e palavra, ficando no meio do caminho: "Com areia e mar eu amo / a areia e o mar, não / com palavras. // Mas com palavras, disse o olho / amarás mais longe, mais seres, mais / planícies e besouros. Amarás vendo. // Mas sem palavras serei distinto e contíguo / ao batimento aqui cardíaco".

Ramos faz em diversos momentos uso notável da tradição instaurada por Cabral e seu cão sem plumas, numa atitude ética que motiva a retórica antirretórica, enxuta, contra as cascatas vazias da palavra melada. No entanto, vale lembrar que aí está o nó da muito contagiosa maneira de Cabral (com base em antiga frase de Ivan Junqueira) - o martelar ensimesmado e as quinas em programa podem provocar uma espécie de condicionamento no leitor, como aquelas melodias que se enroscam feito molas em nossos ouvidos e aí permanecem ecoando o dia todo, inamovíveis. Qualquer pessoa que tenha ou teve em Cabral um de seus poetas preferidos entenderá o que digo. O método e o antimétodo remontam ao parnasianismo e aí temos nova questão. A adoção de uma poética alheia na tentativa de descobrir algum impossível sotaque inédito traz seus riscos e o melhor deles é deparar os limites e a necessidade de rompê-los. Como parece apontar o poema número 43, último da série, em que lemos o seguinte: "Com a tesoura que o acaso / quis parasse em minhas mãos / quando parecia / a mim ao menos parecia / a cara bege da areia superada / e um amarelo único // vindo da bota de Van Gogh / inundava os olhos dos cachorros vivos...". Quer dizer, nada permanece, tudo se move.

MOACIR AMÂNCIO É AUTOR DE ATA (POEMAS, RECORD), YONA, O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA (ENSAIO, NANKIN/EDUSP), PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.