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Fábio Porchat
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'Entre Abelhas'

Estreou quinta passada o meu novo filme Entre Abelhas. É a história do Bruno, que depois de se separar começa a deixar de enxergar as pessoas. As pessoas existem, estão lá, mas ele não consegue vê-las mais. Sempre me perguntam de onde vem uma ideia dessas tão maluca e eu te pergunto: será que ela é tão maluca assim? Cada vez mais nós estamos vivendo numa sociedade em que olhar pro lado tem sido coisa rara. Vivemos presos no nosso próprio mundo sem nem nos darmos conta que existem outros mundos por aí.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2015 | 02h07

Com os smartphones, tablets e afins, nossa vida tem se resumido a nós mesmos. Por que eu preciso do outro? Eu tenho tudo ao alcance das minhas mãos. Com alguns cliques eu pago minhas contas, peço comida em casa, resolvo problemas por e-mail... Não precisamos nem mais ligar, agora é tudo por mensagem e WhatsApp. Está cada vez mais difícil lidar com o outro porque nesse nosso falso mundo maravilhoso de nós mesmos, nos esquecemos que é justamente do outro que dependemos para termos nossos "pedidos" realizados.

Nós automaticamente já tornamos invisíveis os mendigos e os pedintes no trânsito. Fingimos que não vemos aquele menino fazendo malabares no sinal a ponto de olharmos pra frente, através dele. Pessoas que entregam panfletos na rua, a moça que valida o ticket do estacionamento, o garçom, o flanelinha, aquele monte de gente que vive na favela, o seu vizinho que você não conhece, não fez questão de conhecer.

A sua avó que você não visita mais, o seu amigo que você não atende no telefone por preguiça, a sua mulher, a sua mãe... Nós realmente estamos deixando de enxergar as pessoas cada vez mais. E não há nada pior do que ser colocado de lado. Um dia, uma tia avó me disse que ficar surda era muito pior que ficar cega porque surda, as pessoas perdem o interesse por você e você vira um móvel que é tratado como se fosse uma criança de três anos.

Eu tenho certeza de que a maioria das pessoas se deixam enlouquecer porque não tem quem as ouça, quem preste atenção nelas e as deixem falar. A falta de um interlocutor de verdade, que se importe com o que você está dizendo, por mais insignificante que isso possa ser/parecer ser, é que vai minando a cabeça das pessoas. Se ninguém se importa comigo, por que eu tenho que me importar com os outros?

Faça o teste, da próxima vez que encontrar alguém, qualquer pessoa que seja, deixe-a falar e preste atenção no que ela diz. Palavras não ditas acumuladas na cabeça são nossos piores inimigos. Porque elas acabam se misturando e formando pensamentos que não deveriam estar ali. Falando é que a gente se escuta de verdade. Enfim, vá ao cinema e depois me diga por aqui o que você achou do filme. Espero que goste. Mas lembre-se de olhar para a pessoa que pega o seu ingresso e dar um sorridente "oi".

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