Entre a razão e a fé

RODRIGO PETRONIO

RODRIGO PETRONIO É PROFESSOR NA FAAP, NA CASA DO SABER NAS ÁREAS DE LITERATURA, FILOSOFIA, RESPECTIVAMENTE, POETA, AUTOR DE VENHO DE UM PAÍS SELVAGEM (TOPBOOKS), PEDRA DE LUZ (GIRAFA), ENTRE OUTROS LIVROS , O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h08

Chama-se ontologia a parte da filosofia que se ocupa do ser. Em outras palavras, que trata da totalidade do real. Não por acaso, a ontologia foi a base da metafísica - e esta, a espinha dorsal da filosofia, desde o seu nascimento até o século 18, quando Kant a guilhotinou. Por causa dessa vinculação entre ontologia e metafísica, o papel desempenhado pela primeira na obra de Marx tornou-se um dos pontos mais fortes de dissenso no interior do marxismo.

Ao se inserir justamente nesse debate, a obra Para Uma Ontologia do Ser Social, do filósofo húngaro György Lukács (1885- 1971), deve ser vista como um dos maiores empreendimentos intelectuais do século 20 no âmbito dos estudos marxistas. O livro, enfim, está sendo publicado agora no Brasil, em dois volumes, com excelente tradução de especialistas como Carlos Nelson Coutinho, Mario Duayer e Nélio Schneider, revisão técnica de Ronaldo Vielmi Fortes, Ester Vaisman, Elcemir Paço Cunha e apresentação do professor José Paulo Netto (leia entrevista com ele nesta página). A previsão de lançamento do segundo volume é em meados de 2013.

Lukács acreditava que o mundo moderno é um desdobramento da questão da "dupla verdade". Essa concepção se desenvolveu a partir do chamado averroísmo latino e teve seu ápice no século 13, com a teoria nominalista, que propunha uma cisão entre linguagem e ser. Para Lukács, o cardeal Belarmino, que atuou no julgamento de Galileu, no século 16, marcou a guinada decisiva desse movimento dissociador. A divisão da verdade em um duplo reino, um da fé e outro da natureza, atendeu a uma dupla necessidade da burguesia ascendente. Por um lado, liberou a natureza para uma manipulação irrestrita e gerou assim uma sociedade tecnicista. Por outro, fortaleceu o aspecto transcendente da fé, minimizando inclusive o princípio de racionalização social desempenhado pelas religiões, princípio este descrito magistralmente por Max Weber, um dos inspiradores do jovem Lukács.

Nesse sentido, ciência e fé seriam as duas armas pelas quais o mundo burguês criou suas instâncias de legitimação, minando a possibilidade de se conceber uma ontologia geral, ou seja, de entender o real como racional, como queria Hegel. Esse divórcio teria gerado uma compreensão cada vez mais instrumentalizada da linguagem e cada vez mais imanente da natureza. Belarmino orquestrou a capitulação da filosofia da natureza às exigências de uma manipulação antiontológica. Ao se afastarem do ser, a ciência se tornou tecnicista e a religião, irracionalista.

Por isso, a obra de Lukács se abre com uma crítica dupla. Primeiro, ao neopositivismo lógico do século 20, sobretudo a Carnap, e, de modo mais atenuado, a Wittgenstein. Segundo, ao existencialismo. Ao refutar a abordagem ontológica, o neopositivismo teria fornecido uma base conceitual que poderia ser apropriada a uma instrumentalização da linguagem. Em temos ideológicos, Lukács também está pensando no impacto político dessa instrumentalização. Ela poderia se converter em um perigoso alimento de teorias manipuladoras, de visões estrategistas e anti-humanistas, como a da política soviética a partir de Stalin.

Por isso, critica também a concepção positivista de ciência, em ascensão desde o século 19. Ao se propor como uma análise neutra da natureza, paradoxalmente a ciência de inspiração positivista ocultaria em si os atos de fé que a animam, e, ao fazê-lo, não estaria produzindo ciência, mas sim ideologia. Por sua vez, o existencialismo seria um modo de preservar a ideia de Deus sob uma camuflagem ateísta. Além disso, seu pessimismo conduziria a uma inércia em relação às transformações sociais.

Em um segundo momento, Lukács reconstrói o percurso do estudo do ser, discriminando ontologias autênticas e inautênticas. Critica Heidegger e as propostas vitalistas e irracionalistas de Bergson e Nietzsche. Em seguida, retoma a ontologia de Nicolai Hartmann, autor importante e infelizmente ainda hoje pouco lido. Usa-o como modelo para retificar os equívocos que vinculavam a ontologia a um pensamento metafísico.

No terceiro capítulo, Lukács produz um salto. Em sua longa análise de Hegel, demonstra como a ontologia hegeliana apresenta a possibilidade de superação do hiato entre natureza e história. Portanto, Hegel seria uma chave mestra para retificar a divisão da verdade ocorrida com a emergência da racionalidade instrumentalizadora burguesa. Esta, para Lukács, padece de uma rígida delimitação entre procedimentos históricos e abstrativo, genéticos e sistemáticos.

A síntese dessas contradições só se completa quando lançamos luz sobre a dimensão ontológica da obra de Marx. A parte final da obra é uma minuciosa análise ontológica do sistema marxista. Por meio da "teoria do espelhamento", Marx teria refinado o "idealismo objetivo" de Hegel, e, portanto, finalmente consumado a superação definitiva de todo dualismo ontológico.

Uma das marcas do chamado marxismo ocidental é o humanismo. Mais do que mudanças epistemológicas, o humanismo seria a base da renovação marxista ocorrida a partir da década de 1920, da qual Lukács talvez tenha sido o maior protagonista. Em termos teóricos, a guinada ontológica de seu pensamento revela outro aspecto: uma busca de refinamento conceitual. Lukács percebeu que sem um aprofundamento teórico e um projeto cultural o marxismo não conseguiria superar os impasses do materialismo histórico e, a partir de pretextos científicos, ou seja, neopositivistas, fatalmente criaria sistemas totalitários. A renovação de Lukács, Bloch, Korsch, Gramsci, Kosík se intensifica com a estrela solitária e redentora chamada Walter Benjamin e com a Escola de Frankfurt. O movimento do marxismo desde sua origem ocorreu em ondas, para utilizar a conhecida "teoria das marés" de Merleau-Ponty: períodos utópico-revolucionários alternando-se a outros, sistemático-científicos.

Seguindo ventos mais ou menos propícios, a partir dos anos 1960 essas marés se desenham em uma oscilação entre posturas pós, anti e neomarxistas. Vê-se uma percepção pós-marxista na mediologia de Debray, em Colletti, em Wallerstein, em Giddens, no "debate da derivação do estado" de Müller e Neusüss, bem como na teoria da "lógica do capital" de Hirsch. Em contrapartida, haveria um antimarxismo nas críticas ao politismo (maximização da política e minimização da economia), empreendidas por Holloway e Picciotto, e nas críticas aos inimigos das "sociedades abertas", feitas por Popper. Há, por fim, o florescimento de uma tradição neomarxista, nos herdeiros da teoria crítica e na nova esquerda, em um prisma matizado que vai de Foucault e Deleuze a Habermas, Agamben, Badiou, Žižek. No Brasil, no plano neomarxista, temos alguns expoentes em nível mundial, como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho.

Nesse contexto, é extremamente oportuno retomar um clássico do século 20 como Lukács e rever, aos olhos do século 21, as sutilezas de um mestre do humanismo. A questão é saber como é possível, a partir de Lukács e do humanismo marxista, descobrir uma saída para uma realidade pós-humanista que hoje engloba todas as retículas da Terra.

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