Entre a memória e o amor

O Museu da Inocência traz um Orhan Pamuk menos ambicioso - mas em forma

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Isso não era esperado: Orhan Pamuk escreveu seu melhor livro após ganhar o Prêmio Nobel. O Museu da Inocência não tem a ambição de Neve, por exemplo. É o mais pedestre dos romances do autor, aquele cujos personagens são mais próximos dos leitores em suas mundanidades. Se é realmente o teste do grande escritor dar sua versão sobre o amor - que inclui, entre outras, obras-primas como Lolita, Morte em Veneza, Dom Casmurro e Palmeiras Selvagens -, Pamuk conseguiu um lugar de destaque nessa biblioteca.

Homenagem declarada a Proust por sua recorrência à memória, Pamuk opera, todavia, uma narrativa distinta da realizada pelo francês: escrevendo no lugar de Kemal, o protagonista, ele decide recompor essa trama de amor e submissão por fragmentos de prosa, capítulos breves e econômicos que desejam reproduzir o modo como alguém explora um museu: a cada nova peça, quadro, sala, um conjunto de pensamentos vem à tona, recompondo a história de amor entre Kemal e sua prima distante, Füsun. Há uma opção clara pelo melodrama: Kemal segue a etiqueta social ao casar com Sibel, uma mulher de sua classe, deixando a grande paixão para trás.

A trama de O Museu da Inocência não é melhor do que qualquer folhetim televisivo. No entanto, a forma como Pamuk trabalha a convivência da fantasia de uma possível vida feliz acompanhando em paralelo a vida miserável e subtraída de Kemal o faz escapar dos lugares-comuns. Mais: cria um espelho no qual o leitor pode ver suas próprias fantasias de felicidade encenadas.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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